Segundo e último dia do Encontro Nacional de Comunicação reuniu reflexões sobre ética, dados e carisma salesiano, além da construção de propostas.
O IV ENAC 2026, Encontro Nacional de Comunicação da Rede Salesiana Brasil (RSB), encerrou nesta quinta-feira dois dias de trabalho dedicados a pensar o futuro da comunicação salesiana. Se a quarta-feira havia aberto o debate a partir da ideia de presença, questionando como preservar o encontro humano diante do avanço da inteligência artificial, o segundo dia trouxe essa reflexão para um terreno mais concreto, o dos desafios contemporâneos que a comunicação da Rede enfrenta na prática cotidiana de quem educa, evangeliza e produz conteúdo em nome das casas salesianas.
A programação foi retomada às 9h com a acolhida e o momento de oração, conduzidos por Euclides Fernandes Brites, Coordenador de Comunicação da Inspetoria Santo Afonso Maria de Ligório. Em seguida, teve início o bloco central da manhã, dedicado ao tema Desafios Contemporâneos da Comunicação Salesiana e dividido em duas conferências.
Filhos de um pai que é comunicador
A primeira delas ficou a cargo do Pe. Pedro André, SDB, Diretor da ANS, a Agência iNfo Salesiana. Ele começou recordando que o trabalho da Rede não pode separar duas dimensões que caminham sempre juntas, educar e evangelizar. "Se a gente esquecer dessas coisas unidas, nós estamos perdidos", afirmou, reforçando que as duas tarefas seguem sempre de mãos dadas.
Para o padre, "a comunicação é uma dimensão carismática". Ele lembrou que o próprio Dom Bosco recorria aos meios de comunicação disponíveis em seu tempo para evangelizar os jovens, o que faz da Rede, em suas palavras, "filhos de um pai que é comunicador". Dessa constatação vem a definição que deu ao trabalho de quem hoje atua nas redações, estúdios e redes sociais da instituição: colaborar na formação de um ambiente realmente salesiano.
Foi a partir dessa base que Pe. Pedro André avançou para o centro de sua fala, os limites da inteligência artificial diante da experiência humana. Segundo ele, a IA processa bilhões de dados, calcula probabilidades e imita a linguagem humana, mas não tem consciência nem experiência de sentido: ela "sabe, mas não conhece". Por essa razão, a responsabilidade ética de seu uso nunca pode ser atribuída à máquina, e sim às pessoas e instituições que a concebem, treinam, comercializam e utilizam.
A inteligência artificial, completou, pode até simular escuta, empatia e companhia, mas segue sendo uma simulação sem consciência, sem experiência de vida, incapaz de compreender o silêncio, o sofrimento ou a esperança do outro. Esse limite, para ele, é também um alerta direto para quem produz conteúdo em nome da Rede. "Se a gente quer fazer uma postagem bonita só por fazer, mas na verdade a realidade está muito longe disso, nós não estamos nos comunicando, nós estamos mentindo", disse, defendendo uma comunicação que parta sempre do que de fato acontece nas obras salesianas.
Diante desse cenário, Pe. Pedro André defendeu que cabe à Rede continuar oferecendo espaços físicos de encontro, jogo, estudo e oração, onde os jovens vivam relações gratuitas e fiéis que nenhum chatbot será capaz de substituir. Tornar os ambientes salesianos cada vez mais humanos, resumiu, é também manter viva a realidade do oratório.
O que a inteligência artificial faz ao coração
Depois do intervalo, a segunda conferência trouxe um olhar internacional ao debate. Ir. Susana Díaz Vidal, do Âmbito de Comunicação Social do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora, com sede na Casa Geral, em Roma, abriu a apresentação com um dado do relatório Digital 2026: mais de um bilhão de pessoas já utilizam a inteligência artificial ao redor do mundo.
A partir desse cenário, ela apresentou uma constatação direta. "A inteligência artificial já é um ambiente no qual estamos imersos, quer queiramos ou não, e um poder que devemos enfrentar", afirmou. A frase, explicou, é uma citação da Magnifica Humanitas, encíclica publicada em maio deste ano pelo Papa Leão XIV sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. Segundo o documento, regular a tecnologia não é suficiente: é preciso, também, "desarmá-la e torná-la acolhedora".
Mais do que discutir a tecnologia em si, a religiosa propôs a pergunta que, para ela, deveria orientar qualquer reflexão sobre o tema: "O que a inteligência artificial faz ao coração humano? E, considerando a missão que desempenhamos, o que a inteligência artificial faz ao coração dos jovens?"
Na mesma linha, Ir. Susana recorreu à mensagem do Papa Leão XIV para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado em maio. Do texto, resgatou a defesa de que rosto e voz precisam voltar a exprimir a pessoa, com toda inovação tecnológica orientada a serviço desse dom da comunicação. Recuperou ainda a afirmação papal de que "não somos uma espécie feita de algoritmos bioquímicos", mas seres cuja vocação irrepetível se manifesta justamente no encontro com o outro.
Ir. Susana também apresentou um dado que chamou atenção dos presentes: entre as pessoas com mais de 16 anos que se consideram entusiastas do uso da inteligência artificial, o Brasil ocupa a quarta posição no ranking mundial. Ao mesmo tempo, lembrou, cresce entre a população brasileira a preocupação com o uso dos próprios dados pessoais, um contraste que, na leitura dela, exige da Rede atenção redobrada ao formar consciência crítica dentro dos ambientes educativos e pastorais.
Como resposta concreta diante desse cenário, a religiosa retomou o que chamou de critério do oratório, inspirado em Valdocco e em Mornese, os berços do carisma salesiano e da espiritualidade mariana auxiliadora: ambientes sustentados pela razão, pela religião e pelo amor, que seguem servindo de bússola também para a presença das Filhas de Maria Auxiliadora nos ambientes digitais.
O carisma como resposta
Encerradas as duas palestras, a manhã ainda reservou espaço para a participação direta dos presentes. Conduzido por Ir. Maike Loes, Coordenadora de Comunicação da Inspetoria Nossa Senhora Aparecida, o momento reuniu contribuições dos comunicadores para o processo de elaboração da Política de Comunicação e Marketing da Rede, prevista para 2027. Registradas em um mural coletivo, essas contribuições devem alimentar os próximos passos da construção do documento, que pretende orientar a atuação comunicacional da Rede Salesiana Brasil nos próximos anos.
A programação chegou ao fim com o momento de avaliação e encerramento, conduzido por Thiago Santos, Gestor de Comunicação da RSB. Na avaliação dele, a comunicação salesiana não deve ser entendida apenas como uma função de apoio às unidades da Rede, mas como o próprio ato pelo qual sua missão se torna visível. "A gente tem que ter essa noção de saber aonde queremos chegar e como chegar", afirmou.
Thiago Santos reforçou ainda que ser comunicador, ou melhor, ser educador salesiano, vai além do domínio de ferramentas e técnicas: fazem parte desse repertório também as experiências vividas no pátio, no convívio direto com os jovens. Ao retomar os temas discutidos ao longo dos dois dias de encontro, resumiu o que considerou a resposta da Rede diante de tantas mudanças. "Os desafios contemporâneos da comunicação salesiana não são apenas identitários. A questão é: como nos tornamos comunicadores salesianos? A resposta está no carisma. O nosso carisma já responde a isso e nos permite adaptar a nossa comunicação aos novos tempos", disse, encerrando oficialmente o ENAC 2026.