Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora celebra 150 anos de sua fundação
05/08/2022

Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora celebra 150 anos de sua fundação

Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora celebra 150 anos de sua fundação

“A ti as confio”. Quem lê essa frase pela primeira vez não consegue dimensionar o impacto que ela causou na vida de milhares de jovens ao longo dos últimos 150 anos.
Maria Domingas Mazzarello ouviu essa misteriosa mensagem em uma visão, enquanto via algumas jovens correndo em um pátio, no interior de um grande edifício, em Mornese (Itália). Esse foi o marco inicial para que, anos depois, mais precisamente em 05 de agosto de 1872, fosse fundado o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA).
Atualmente, o Instituto que teve suas origens em um pequeno vilarejo na Itália, está presente nos cinco continentes. Dom Bosco afirmava que cada uma das Filhas de Maria Auxiliadora é parte do “monumento vivo” de sua gratidão à Maria. Essa linda história é contada a seguir.
Maria Domingas Mazzarello
Maria Domingas Mazzarello nasceu em Mornese, na Itália, em 1837. Junto com Dom Bosco, fundou o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora. Sua vida foi marcada por um estilo de relações simples e autênticas. Como educadora, teve coração de mãe, sabendo ser firme em relação aos princípios e valores universais. Foi Beatificada em 20 de novembro de 1938 e Canonizada em 24 de junho de 1951.
Maria Domingas fazia parte de uma numerosa família de camponeses. Dotada de força física não comum, desde menina trabalhou nos campos com o pai, Giuseppe. Foi formada na família em um profundo sentido de Deus, a uma laboriosidade incansável e àquele acentuado senso prático e profundidade de juízo que manifestou em seguida, também como Superiora. Em 1855, aos seus 15 anos inscreveu-se na Associação das Filhas da Imaculada onde, juntamente com outras jovens, dedicou-se às obras de caridade e ao cuidado de crianças. A atuação das jovens da Associação era de boa intenção, porém elas ainda não possuíam uma estrutura de instituto religioso. Paralelamente a isso, em Turim, Dom Bosco fundava a Sociedade de São Francisco de Sales, os Salesianos, que também se ocupava do cuidado da juventude e, essa feliz “coincidência” levaria, futuramente, à criação do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora.
Mazzarello e as meninas de Mornese
Enquanto Dom Bosco amadurecia seu projeto, em Mornese (Alessandria), Maria Domingas Mazzarello, membro da Associação das Filhas da Imaculada, animava um grupo de jovens que se dedicavam às meninas do lugar, com o objetivo de torná-las habilidosas na costura e, acima de tudo, orientá-las a serem boas cristãs e honestas cidadãs.
Dedica-se assim à educação das meninas abrindo uma oficina de costura, um oratório festivo e depois uma casa para crianças sem família. Envolve a amiga Petronilla em seu projeto e aprende a profissão de costureira para ensinar às meninas pobres não só a costurar, mas especialmente a conhecer e amar a Deus.
O Papa Pio IX, em um encontro com Dom Bosco, o incumbiu de fundar uma obra que também acolhesse meninas e, após conhecer o Padre Pestarino que estava entrando para a Congregação dos Salesianos, Dom Bosco ficou sabendo do trabalho da Associação das Filhas da Imaculada com as jovens de Mornese. Assim, com o pretexto de arrecadar fundos para o seu oratório, ele vai até a cidade de Mornese e, após conhecer e encantar-se com o trabalho das jovens mornesinas, propõe que se forme, através delas, um ramo feminino dos Salesianos. Com isso, em 1872, surge o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora e, a partir de uma determinação de Dom Bosco, o colégio que a população de Mornese estava construindo para servir de escola para os meninos, foi destinado a esse novo Instituto feminino da Congregação Salesiana, tornando realidade a visão de Maria Mazzarello.
Posteriormente, aos poucos, outras jovens foram agregando-se à missão das Filhas de Maria Auxiliadora o que proporcionou a expansão da ação salesiana feminina como a partida, em 1877, das primeiras missionárias para a América Latina (Montevidéu, Uruguai).
Dom Bosco chega a Mornese
Há uma outra data importante para o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora e para Mornese: 7 de outubro de 1864. Dom Bosco se encontrou pela primeira vez com o povo de Mornese. Ele chega montado num cavalo branco e acompanhado por cerca de oitenta meninos. À beira da estrada, os mornesinos o recebem com alegria e festa.
Na cidade, Dom Bosco conhece aquela que seria muito relevante para sua missão educativa: Maria Domingas Mazzarello. Também toma conhecimento da vontade do povo: a de construir, na colina de Borgo Alto, um colégio que servisse de escola para os meninos do lugar.
Em uma visita à pequena oficina das “Filhas da Imaculada”, Dom Bosco fica muito impressionado. Ali, surgia uma vocação comum entre Dom Bosco e Madre Mazzarello. Dois sonhos convergiam para um idêntico ideal: levar às meninas e jovens mulheres da época a proposta educativa e evangelizadora Salesiana.
Fundação do Instituto
Em 1870, Dom Bosco retorna à cidade de Mornese para ver de perto a vida das “Filhas” e mostra-se plenamente satisfeito. Diante de tal realidade, no ano seguinte, ele reúne os seus Salesianos e pede o parecer de cada um sobre a fundação do ramo feminino. Todos se manifestam favoráveis. Dom Bosco determina, então, que as “Filhas da Imaculada” que desejam livremente fazer parte do novo Instituto, se transfiram para o prédio do colégio recém-construído e ali levem uma vida comunitária.
No dia 5 de agosto de 1872, um grupo de 11 jovens emite a Primeira Profissão para serem, na Igreja e na sociedade religiosa, educadoras das jovens, especialmente das classes populares. Elas também se reuniram e elegeram Maria Domingas Mazzarello como a primeira superiora do recém fundado Instituto. O nome do Instituto foi escolhido por Dom Bosco com um claro objetivo: que as Irmãs fossem um “monumento vivo” de sua gratidão a Nossa Senhora Auxiliadora.
Dirigido pela sabedoria formativa de sua cofundadora, Madre Mazzarello, o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora conjuga, com criatividade, o Sistema Preventivo de Dom Bosco, usando dos recursos femininos, das exigências da educação da mulher e da infância e da presença ativa no âmbito da escola e da catequese.
As Filhas de Maria Auxiliadora ganham o mundo
O crescimento do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora impulsionou sua expansão não só para os arredores de Mornese, mas também para o mundo inteiro. Motivadas pelo espírito missionário, as Filhas de Maria Auxiliadora saíram da pequena Mornese e chegaram na América do Sul em 1877, iniciando sua missão em Montevidéu, no Uruguai. Nos anos seguintes, sua presença chegou em mais países do continente, como Argentina e Chile.
Em 1892, a história das FMA se inicia no Brasil, com a fundação da sua primeira casa no país, na cidade de Guaratinguetá (SP), onde atualmente está situado o Instituto Nossa Senhora do Carmo. A história da chegada e expansão das FMA no país pode ser conferida no Memorial das Filhas de Maria Auxiliadora, inaugurado em 2019 também na cidade onde tudo começou por aqui.
Paralelamente à sua expansão na América do Sul, o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora crescia na Europa e chegava também à Ásia (1891) e África (1893). O último continente a receber a presença das FMA foi a Oceania, com sua chegada em 1954 na Austrália.
Segundo dados do próprio Instituto, até o ano de 2020, o mundo contava com 11.225 Filhas de Maria Auxiliadora, espalhadas em 97 países.
05 de agosto de 2022: comemorando 150 anos de fundação
De Mornese para o mundo, o Instituto das FMA celebra em 2022 os 150 anos de sua fundação, e as comemorações são das mais diversas, como também é diversa a forma como o carisma se espalhou por todos os cantos, mantendo o mesmo ardor missionário e evangelizador, inspirado por Deus a Maria Mazzarello e suas companheiras, com o acompanhamento de Dom Bosco.
Desde 2021, Inspetorias de todo o mundo promovem as mais diferentes comemorações, como Celebrações, eventos, seminários, romarias e muito mais. No Brasil, a Família FMA irá celebrar a data envolvendo suas Inspetorias e presenças, nos quatro cantos do país.
A Inspetoria Nossa Senhora Aparecida, formada pelos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, se encontrará no dia 05 para uma Celebração Eucarística no altar central do Santuário Nacional de Aparecida, casa de sua Patrona. Do Santuário – chamado pelo Arcebispo de Aparecida, Dom Orlando Brandes, de “Casa da Palavra” emana a unidade e o sentimento de pertença ao Instituto tão querido por Nossa Senhora. A Missa no Santuário Nacional será transmitida a partir das 12h pela Rede Aparecida e pela página do Facebook da Inspetoria Nossa Senhora Aparecida.
Para Irmã Lina Mondini, da Comunidade das Filhas de Maria Auxiliadora e residente em Rio do Sul (SC), celebrar uma data não é encerrar uma obra, mas inaugurar uma nova vida. «Uma vida de gratidão a Deus e a Maria Auxiliadora pela proteção recebida nos 150 anos. Uma vida de renovado compromisso com o carisma que está se expandindo velozmente na mão dos leigos. Uma vida de alegria salesiana e entusiasmo juvenil que contagiam todas as FMA, mas de modo singular, as que já não possuem condições físicas de estar no campo de trabalho junto à juventude. Comemorar os 150 anos é ter a certeza de que os milagres acontecidos até aqui continuarão acontecendo nessa obra, que é toda de Maria, mãe de Jesus!».
Irmã Helena Gesser, Conselheira responsável pela Formação na BAP e diretora da comunidade da Casa inspetorial, diz que celebrar 150 anos de fundação significa celebrar 150 anos de vida, de história, de bênçãos e de fidelidade carismática e, sem dúvida, de santidade. «Mais do que nunca, a celebração desses 150 anos pede que sejamos segundo o coração de Dom Bosco e de Madre Mazzarello, mulheres com coração de mãe, capazes de gerar vida, amor e paz no coração de tantas pessoas, sobretudo no coração de tantos jovens que perderam o sentido da vida. Somos convocadas, como dizia Madre Mazzarello, “a tornar Jesus conhecido e amado” num mundo onde os valores humanos e cristãos estão cada vez mais perdendo o lugar para tantas outras ideologias.»
«Foram 150 anos vividos numa entrega e doação generosa a serviço das jovens e dos jovens buscando sempre educar evangelizando e evangelizar educando. A festa dos 150 anos é de gratidão e alegria por todo o bem realizado, por todas as sementes lançadas e que produziram muitos frutos. Gratidão a Deus que, através do seu Espírito, conduziu a história, e gratidão a Maria Auxiliadora que, como Mãe e Protetora, foi sempre presença significativa na vida e missão do Instituto. Como dizia Dom Bosco em Nizza: “Maria, caminha nesta casa”, hoje, ela caminha entre nós!», finaliza seu depoimento.

Fonte: Salesianas.org.br

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A encíclica de Leão XIV: a IA deve servir à humanidade, não ao poder de poucos

No 135º aniversário da “Rerum novarum”, o Pontífice reflete, em sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, sobre a Doutrina Social da Igreja na era da inteligência artificial. O apelo para preservar “uma magnífica humanidade habitada por Deus”, promovendo a verdade, a dignidade do trabalho, a justiça social e a paz. Na era digital, é preciso desarmar a IA e superar a teoria da “guerra justa”, relançando o diálogo e o multilateralismo “A magnífica humanidade criada por Deus encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”. O incipit da primeira encíclica de Leão XIV – Magnifica humanitas, “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial” – resume suas razões fundamentais e seu objetivo. Publicada hoje, segunda-feira, 25 de maio, foi assinada pelo Pontífice no último dia 15 de maio, no 135º aniversário da promulgação da Rerum novarum de Leão XIII. E de seu predecessor, o Papa Prevost recolheu a herança, escrevendo uma encíclica social que aborda um dos principais desafios da época contemporânea: a inteligência artificial. Dividida em cinco capítulos, Magnifica humanitas parte de um pressuposto: a tecnologia não é uma “força antagônica em relação à pessoa” (4), nem “um mal em si mesma” (9). No entanto, ela “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. Daí, o apelo do Pontífice para “construir o bem” e “permanecer humanos”, seguindo a lógica da corresponsabilidade corajosa e da comunhão. A Doutrina Social da Igreja O primeiro capítulo – Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho – repercorre a Doutrina Social da Igreja (DSI) no magistério recente e no Concílio Vaticano II, destacando “o seu caráter dinâmico” (17). Longe de ser “um manual de princípios e normas a serem aplicados”, a DSI é antes uma “teologia da comunhão na história” (27) que orienta a leitura dos acontecimentos à luz do Evangelho. No segundo capítulo, Leão XIV enumera os Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja: entre os primeiros, inclui a dignidade da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus; a inviolabilidade dos direitos humanos, entre os quais o direito à vida “desde a concepção até ao seu fim natural”; o reconhecimento dos direitos das minorias, com especial atenção às mulheres, para que sejam verdadeiramente ouvidas e valorizadas (57). LEIA AQUI O TEXTO INTEGRALE DA ENCÍCLICA DE LEÃO XIV "MAGNIFICA HUMANITAS"  É inaceitável subjugar uma nação Quanto aos princípios da DSC, Leão XIV aponta cinco: o primeiro é o bem comum, “forma social da dignidade reconhecida a cada um” (59). Em um ponto, o Papa é particularmente firme: “A promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito ao direito dos povos de existir, de preservar sua identidade e de contribuir com sua originalidade para a família das nações”. Consequentemente, “qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, portanto, inaceitável” (64). A tecnologia não deve estar nas mãos de poucos O segundo princípio diz respeito à destinação universal dos bens: aí e em outros pontos da encíclica, Leão XIV insiste na necessidade de que as tecnologias não se concentrem nas mãos de poucos, alimentando a disparidade entre os incluídos e os excluídos da revolução digital (67). Daí decorrem o terceiro e o quarto princípios, a saber, a subsidiariedade (68) – que exige a superação do paternalismo e do assistencialismo em favor da corresponsabilidade – e a solidariedade (73), “princípio e virtude” que se opõe à indiferença. A justiça social O quinto princípio da DSC é a justiça social: na era digital, ela deve garantir a todos um acesso equitativo às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o ódio e a desinformação e submeter o uso das tecnologias ao controle público. Leão XIV aponta os migrantes como um “teste decisivo” nesse campo: a maneira como a sociedade os trata demonstra “se a ideia de justiça é guiada pelo medo ou pela fraternidade”. Daí, o apelo tanto para salvaguardar “o direito à esperança” daqueles que são forçados a partir, garantindo-lhes vias seguras e legais, acolhimento digno e integração; quanto para promover “o direito de permanecer” de cada um em sua terra, em paz e segurança, enfrentando “as causas profundas” das migrações (81). O Pontífice entende que os cinco princípios acima mencionados se dirigem também à Igreja, chamada a “um exame de consciência”, a ouvir as “vítimas de abusos espirituais, econômicos, institucionais, sexuais, de poder e de consciência”, pois isso “é parte integrante de um caminho de justiça, que compreende o reconhecimento do dano, a reparação justa e a prevenção” (89). Um código ético para a IA O terceiro capítulo – Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana diante das promessas da IA – ressalta que é preciso abordar a IA com cautela, mantendo clareza sobre as responsabilidades em todas as suas etapas (accountability) e apostando em políticas e marcos jurídicos adequados, vigilância independente e educação dos usuários. Acima de tudo, é necessário um código ético submetido a critérios de justiça social compartilhada, pois “não serve uma IA mais moral se essa moral for decidida por poucos” (107). Sem deixar de lado o impacto ambiental das novas tecnologias, que exigem grandes quantidades de energia e água, afetando a Criação (101). Desarmar a IA É preciso “desarmar a IA” – prossegue Leão XIV – para subtraí-la à lógica da competição militar, econômica e cognitiva; para romper a equivalência entre poder técnico e direito de governar; para subtraí-la aos monopólios e impedir que domine o humano. Amplo espaço é dedicado à crítica do transumanismo e do pós-humanismo, que interpretam o progresso como a superação dos limites do humano. Em vez disso, o limite não é um defeito a ser eliminado, mas uma dimensão constitutiva da pessoa, pois é na fragilidade e na finitude que amadurecem a relação e a abertura a Deus e ao outro. Fazer a tecnologia crescer eliminando os limites do humano significa, portanto, fazer o coração regredir. Magnífica e, ainda assim, ferida, a humanidade “não deve ser substituída nem superada”. A tecnologia pode aliviar seus sofrimentos e abrir-lhe novas possibilidades, mas não deve negá-la naquilo que lhe é próprio: “a capacidade de relação e de amor” (126). Diante da IA, a verdadeira alternativa não está entre o entusiasmo e o medo, mas entre duas formas de construir o progresso: a serviço da pessoa e dos povos ou das lógicas do poder (129). Uma ecologia da comunicação No quarto capítulo – Preservar o humano na transformação. Verdade, trabalho, liberdade –, a encíclica defende uma “ecologia da comunicação” baseada na verdade. O Papa pede transparência nos critérios de seleção de conteúdos, proteção dos dados pessoais, um jornalismo sério fundamentado na argumentação e na verificação, uma nova consciência no uso “correto e crítico” da IA e a integração dos conhecimentos. Uma comunicação transparente e leal é exigida também da Igreja, sobretudo nos casos de injustiças e abusos. É fundamental também o apelo a uma aliança educativa renovada, para que nos jovens não se apague “o desejo de fazer perguntas” por causa de máquinas perfeitas que fazem parecer inútil o pensamento humano (140). Leão XIV pede ainda que se aposte na escola como lugar onde se aprende a “buscar e amar a verdade” (147). A dignidade do trabalho Na “quarta revolução industrial” representada pela transição digital, o Pontífice ressalta então a importância de proteger a dignidade do trabalho, projetando sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho. A tecnologia pode certamente aliviar o homem de tarefas pesadas ou repetitivas, mas não deve levar ao desemprego em nome da redução de custos e do aumento do lucro. Nesse sentido, espera-se também uma renovação das organizações sindicais. Paz e desenvolvimento O Pontífice destaca, em seguida, a necessidade de superar o PIB como parâmetro do grau de desenvolvimento de um país, apostando, em vez disso, na dignidade do trabalho, na prosperidade compartilhada, na redução das desigualdades e na preservação do meio ambiente. A finança pela finança é, de fato, diferente da finança para o desenvolvimento (159-160). E, seguindo os passos de São Paulo VI, destaca-se a interdependência entre paz e desenvolvimento, almejando uma cooperação internacional capaz de definir estratégias comuns, sobretudo em favor dos países e dos grupos mais vulneráveis, pois a prosperidade contribui para a paz “somente se for difundida, inclusiva e sustentável” (163). É forte, ainda, a referência à família, fundada na união estável entre um homem e uma mulher: ela é “bem social primário”, “célula fundamental e insubstituível de toda organização comunitária” (165), que deve ser apoiada também por meio de políticas do trabalho em favor da estabilidade e de ritmos humanos, para assim proteger a capacidade social de “construir o futuro”. A “arquitetura da visibilidade” Por fim, a questão da liberdade humana: numa época em que as plataformas digitais são projetadas para capturar o tempo dos usuários e explorar suas fragilidades, é preciso fortalecer a liberdade interior de cada um, enfrentando também o risco do controle social decorrente da coleta massiva de dados e do uso de sistemas algorítmicos. Perfilar, prever e orientar comportamentos, de fato, é “um novo poder” (171) que corre o risco de discriminar os mais fracos. O Papa deplora, em particular, a “arquitetura da visibilidade” que amplifica apenas o que é visível, moldando as opiniões. Novas formas de escravidão e novo colonialismo A IA também gera novas formas de escravidão, como a dos “corpos marcados, mutilados, consumidos” (173) daqueles que trabalham na extração das “terras raras” necessárias à tecnologia. Portanto, a luta contra as novas formas de escravidão é outro “teste decisivo para o discernimento ético” da transformação digital. Leão XIV ressalta que “a Igreja renova sua firme condenação contra toda forma de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas”. Ao mesmo tempo, o Papa pede “sinceramente perdão” pelo atraso com que a Igreja, no passado, condenou “o flagelo da escravidão” (174-176). A encíclica também faz referência às “novas terras raras do poder”, ou seja, as informações vitais – por exemplo, sobre saúde e demografia – utilizadas para orientar estratégias econômicas: trata-se de uma face inédita do colonialismo que transforma vidas pessoais em informações exploráveis, tornando o ambiente digital um “espaço de predação” (178-179).   Superar a teoria da “guerra justa” No quinto capítulo — A cultura do poder e a civilização do amor —, Leão XIV volta seu olhar para a guerra: “A revolução digital está modificando a gramática dos conflitos” e, sem uma abordagem ética, as decisões sobre a vida e a morte das pessoas serão cada vez mais impessoais, com o recurso à força considerado uma “opção imediata e viável” (182-183). Na base de tudo está uma “cultura do poder” que normaliza a guerra e a reabilita como “instrumento de política internacional”, favorecendo o rearmamento. Sobre a opinião pública pesam hoje também as narrativas midiáticas polarizadoras, bem como “uma preocupante perda de memória histórica” que priva de uma visão de longo prazo (191). Consequentemente, hoje a paz não é mais entendida como uma tarefa a ser assumida, mas como um intervalo entre os conflitos. Por isso, Leão XIV reitera que – sem prejuízo do direito à legítima defesa no sentido mais estrito – é preciso superar a teoria da “guerra justa”, promovendo, em vez disso, o diálogo, a diplomacia e o perdão (192). Nenhum algoritmo torna a guerra moralmente aceitável O Papa Prevost não deixa de deplorar o crescimento da indústria bélica, a corrida aos armamentos nucleares e o surgimento de novos atores armados – entre os quais os jihadistas – que visam perpetuar os conflitos como fonte de poder e de renda. É clara, ainda, a advertência contra o uso de armas ligadas à IA, pois “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”. São necessárias restrições éticas rigorosas, compartilhadas internacionalmente, baseadas na responsabilidade pessoal e na proteção dos civis, pois “toda tecnologia que facilita atacar sem ver o rosto do outro abaixa o limiar moral do conflito” (199). A crise do multilateralismo A cultura do poder decorre também da crise do multilateralismo e do surgimento de um “multipolarismo desordenado e conflituoso” (201). A força do direito é substituída pelo direito do mais forte; as lógicas do poder prevalecem sobre a construção da paz e as instituições criadas para zelar pelo destino comum dos povos estão agora enfraquecidas. A esse respeito, o Papa deseja para a ONU “reformas profundas” que superem a atual crise de valores em favor do bem comum (226). A civilização do amor O cristão é chamado a responder à cultura do poder construindo “a civilização do amor” e escolhendo entre alimentar a lógica da força ou zelar pela paz. O Papa aponta cinco “caminhos de responsabilidade”: desarmar as palavras dizendo a verdade; construir a paz na justiça; assumir o olhar das vítimas tomando posição, pois há conflitos em que “não é justo permanecer neutro”; cultivar “um saudável realismo” que busque caminhos de paz viáveis com os fatos, não apenas com palavras. Por fim, relançar o diálogo, passando de uma cultura do poder para uma cultura da negociação. É decisivo também “o diálogo entre as religiões”, portador de uma mensagem de paz: “Quem usa o nome de Deus para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra trai o seu rosto” é a advertência de Leão XIV (223). A magnífica humanidade Ao concluir a carta, o Pontífice convida os fiéis a viver as novas tecnologias à luz do Evangelho, seguindo “um itinerário de vida cristã sóbrio e exigente”. Para que, mesmo na era da IA, todos possam testemunhar “a beleza de uma magnífica humanidade habitada por Deus”. Fonte: Isabella Piro – Vatican News

P. Costantino Vendrame é declarado Venerável

Papa Leão XIV reconhece as virtudes heroicas do missionário salesiano que dedicou mais de três décadas à evangelização no nordeste da Índia, tornando-se referência de caridade, esperança e santidade entre os povos. Resumo O Papa Leão XIV autorizou a promulgação do decreto que reconhece as virtudes heroicas do Servo de Deus Padre Constantino Vendrame, SDB, declarando-o Venerável. Nascido na Itália, em 1893, ingressou na Congregação Salesiana motivado pelo ideal missionário e foi ordenado sacerdote em 1924. Atuou por mais de 30 anos no nordeste da Índia, dedicando-se à evangelização das populações mais pobres e distantes, percorrendo longas distâncias para levar o anúncio do Evangelho. Tornou-se amplamente reconhecido pela vida de oração, pela caridade incansável, pelo espírito de serviço e pela proximidade com pessoas de diferentes tradições religiosas. Durante a Segunda Guerra Mundial, enfrentou o internamento como cidadão italiano em território britânico, destacando-se pela fortaleza espiritual e pelo apoio oferecido aos companheiros. Viveu seus últimos anos marcado pelo sofrimento físico, oferecendo suas dores com espírito de fé até falecer em Dibrugarh, na Índia, em 30 de janeiro de 1957. A declaração de venerabilidade foi acolhida com alegria na Itália, na Arquidiocese de Shillong e por toda a Família Salesiana, que vê no missionário um testemunho exemplar do carisma de Dom Bosco. Segundo o Postulador-Geral das Causas dos Santos da Família Salesiana, Padre Pierluigi Cameorni, o reconhecimento destaca Padre Vendrame como um “missionário da esperança entre os povos”, profundamente unido ao Coração de Cristo, ao Espírito Santo e à devoção a Maria Auxiliadora.   Em 22 de maio de 2026, o Santo Padre Leão XIV recebeu em audiência o Cardeal Marcello Semeraro, Prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos. Na ocasião, o Sumo Pontífice autorizou o mesmo Dicastério a promulgar o Decreto relativo às virtudes heroicas do Servo de Deus Costantino (Constantino) Vendrame, Sacerdote professo da Sociedade de São Francisco de Sales, nascido em San Martino di Colle Umberto (Treviso-Itália), em 27 de agosto de 1893, e falecido em Dibrugarh, na Índia, em 30 de janeiro de 1957. O P. Constantino Vendrame nasceu de família de condição humilde, mas marcada por sólidos valores cristãos, provada pela doença e por perdas familiares. Desde muito jovem, sentiu o chamado ao sacerdócio e ingressou, em 1908, no seminário da Diocese de Ceneda (Vittorio Veneto), passando, em 1912, para os Salesianos de Dom Bosco, movido pelo amor às missões e pelo desejo de partir como missionário. Noviço em 1913, professou os votos temporários em 1914 e os perpétuos em 1920, formando-se na vida religiosa por meio do tirocínio prático. Durante a Primeira Guerra Mundial, destacou-se como soldado exemplar, mantendo fidelidade à própria vocação. Ordenado sacerdote em 15 de março de 1924, em Milão, recebeu, em 5 de outubro do mesmo ano, o crucifixo missionário em Turim, na Basílica de Maria Auxiliadora. Partiu então para o nordeste da Índia (Assam), chegando a Shillong em 24 de dezembro de 1924. Atuou como missionário – e, na maioria das vezes, como pároco, em Shillong-Laitumkhrah, Jowai, Wandiwash, no Tamil Nadu (sul da Índia), e, por fim, em Shillong-Mawkhar, onde permaneceu, de 1951 até à morte. O P. Vendrame tornou-se uma figura lendária: missionário itinerante, percorria a pé longas distâncias para chegar aos povoados mais remotos, fazendo-se “pobre entre os pobres” e acolhendo com serenidade o desgaste das fadigas e os riscos da vida apostólica. Homem de diálogo, atraía multidões a Cristo por meio da caridade, evangelizando aldeia por aldeia, casa por casa. Sua figura era respeitada não apenas pelos cristãos, mas também por pessoas de outras tradições religiosas, que o reconheciam como um verdadeiro homem de Deus. Durante a Segunda Guerra Mundial, na condição de cidadão italiano em território do Império Britânico, viu-se obrigado a interromper sua ação missionária e foi internado com outros compatriotas: inicialmente sob custódia dos Gurkhas, depois em Deoli e, por fim, em Dehra Dun. Nesse período de aparente imobilidade, evidenciou uma notável fortaleza interior, tornando-se referência de consolo e apoio. Acometido por artrose, inclusive na coluna vertebral, e marcado por intensas dores até a episódios de desmaio, viveu os últimos meses em total espírito de oferta. Internado em Dibrugarh, faleceu na véspera da Festa de São João Bosco, em 30 de janeiro de 1957. Seus funerais transformaram-se numa expressiva manifestação de Fé e gratidão. Já em vida, era acompanhado por ampla fama de santidade e por sinais extraordinários, comparado a São Paulo, São Francisco Xavier e São Vicente de Paulo. Sobre ele, afirmou-se: “Recordamos o P. Vendrame como um sacerdote que nos amou com o coração de Cristo: humano e ardente, firme e fiel, sempre pronto a dar a vida por nós”. A notícia da declaração de venerabilidade foi acolhida com grande alegria em sua cidade natal, San Martino di Colle Umberto, e na Diocese de Vittorio Veneto, que sempre promoveram com dedicação a Causa de Beatificação do seu conterrâneo. Também a Arquidiocese de Shillong e a Família Salesiana do nordeste da Índia celebram este reconhecimento, que confirma uma história marcada por intensa ação missionária e santidade vivida segundo o espírito apostólico de Dom Bosco. “A venerabilidade de P. Vendrame, declarou o P. Pierluigi Cameorni, Postulador-Geral para as Causas dos Santos da Família Salesiana, representa o reconhecimento de um missionário da esperança entre os povos. Por meio do contato pessoal, transmitiu o amor do Coração compassivo do Senhor, convicto de que ‘o Coração de Cristo […] é o núcleo vivo do primeiro anúncio’ (Enc. Dilexit nos, 32). Alimentando-se dessa fonte, levou com ardor apostólico a mesma consolação de Deus, que abraça o mundo inteiro. Cabe ainda recordar que a venerabilidade do P. Vendrame foi reconhecida durante a novena de Pentecostes e a de Maria Auxiliadora, que neste ano coincidem. O P. Vendrame, além de ardoroso apóstolo do Sagrado Coração, foi um missionário dócil à ação do Espírito Santo e um filho devoto da Auxiliadora, no espírito de Dom Bosco Santo”. Fonte: Inspetoria Salesiana de São Paulo

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