O milagre que levou à canonização de Santo Artêmides Zatti: o enfermeiro dos pobres
09/10/2026

O milagre que levou à canonização de Santo Artêmides Zatti: o enfermeiro dos pobres

O milagre que levou à canonização de Santo Artêmides Zatti: o enfermeiro dos pobres

O reconhecimento da cura extraordinária de um filipino após um grave AVC abriu caminho para sua canonização pelo Papa Francisco, em 2022.

A história de Santo Artêmides Zatti é marcada pela dedicação aos doentes, pela confiança em Deus e pelo serviço aos mais pobres. Nascido em Boretto, na Itália, em 12 de outubro de 1880, Zatti emigrou ainda jovem com a família para a Argentina, onde encontrou a espiritualidade salesiana e começou um caminho que o levaria a dedicar toda a sua vida ao cuidado dos enfermos.

Sua trajetória de santidade, porém, também foi marcada por uma experiência pessoal de cura. Ainda jovem, quando se preparava para a vida salesiana, Artêmides contraiu tuberculose enquanto cuidava de um sacerdote doente. No hospital salesiano de Viedma, o padre Evasio Garrone o incentivou a confiar sua recuperação à intercessão de Nossa Senhora Auxiliadora e a fazer uma promessa: se fosse curado, dedicaria a vida aos doentes.

Zatti acreditou, fez a promessa e se recuperou. Anos depois, resumiria a experiência em uma frase que se tornou símbolo de sua espiritualidade: “Acreditei. Prometi. Curei-me.”

A partir daquele momento, sua vida tomou um novo rumo. Em 1908, fez a primeira profissão religiosa como Salesiano Coadjutor e, em 1911, a profissão perpétua. Em Viedma, na Patagônia argentina, passou a dedicar-se inteiramente ao atendimento dos doentes. Depois da morte do padre Garrone, em 1913, assumiu grande parte da responsabilidade pelo hospital salesiano, atuando como enfermeiro, administrador e cuidador.

Conhecido pelo carinho com que tratava cada paciente, Zatti não fazia distinção entre aqueles que podiam ou não pagar pelo tratamento. Seu serviço ultrapassava os limites do hospital e chegava às casas de pessoas pobres de Viedma e Carmen de Patagones. Por isso, ficou conhecido como o “parente dos pobres”.

O milagre que abriu caminho para a canonização

Décadas depois de sua morte, ocorrida em 15 de março de 1951, a fama de santidade de Zatti continuou a se espalhar. Ele foi beatificado pelo Papa João Paulo II em 14 de abril de 2002.

Para a canonização, a Igreja reconheceu um segundo milagre atribuído à sua intercessão. O caso aconteceu nas Filipinas, em agosto de 2016, e envolveu Renato Narvaez, que sofreu um grave acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico cerebelar, acompanhado por uma hemorragia severa. Seu estado de saúde se agravou rapidamente e ele chegou a ser encaminhado para uma unidade de terapia intensiva.

O irmão de Renato, Roberto Narvaez, era Salesiano Coadjutor. Ao saber da gravidade do quadro, passou a rezar pedindo a intercessão do então Beato Artêmides Zatti pela recuperação do irmão. A situação, entretanto, continuava crítica.

Uma avaliação neurocirúrgica indicou a necessidade de uma intervenção. A família, porém, não tinha condições financeiras para custear a cirurgia. Diante da gravidade do quadro, Renato foi levado para casa para passar os últimos momentos ao lado dos familiares. Ele recebeu a Unção dos Enfermos e se despediu dos parentes.

Foi então que Roberto convidou a família a se unir em oração, invocando a intercessão de Artêmides Zatti.

No dia 24 de agosto de 2016, ocorreu uma mudança inesperada no quadro. Renato retirou o tubo e o oxigênio e chamou os familiares. Disse que estava bem, pediu para tomar banho e quis comer. Aquele homem que havia sido levado para casa diante da expectativa de morte apresentava uma recuperação que surpreendeu os que acompanhavam seu caso.

O acontecimento foi posteriormente estudado no processo de canonização. A Igreja reconheceu a cura como o milagre atribuído à intercessão de Artêmides Zatti que permitiu sua canonização.

Do cuidado dos doentes à santidade

O reconhecimento do milagre está profundamente ligado à própria história de Zatti. Durante décadas, ele havia colocado sua vida a serviço de pessoas doentes e pobres. Sua experiência pessoal com a enfermidade e a cura marcou profundamente sua vocação.

O Papa Francisco destacou essa dimensão ao receber, em outubro de 2022, peregrinos salesianos que participaram da canonização. Na ocasião, estavam presentes representantes da Itália, Argentina e Filipinas, além do próprio homem cuja cura foi atribuída à intercessão de Zatti.

A canonização aconteceu em 9 de outubro de 2022, na Praça de São Pedro, no Vaticano. Na mesma celebração, o Papa Francisco proclamou santo também Giovanni Battista Scalabrini.

Durante a homilia, Francisco apresentou a santidade a partir do Evangelho dos dez leprosos que foram curados por Jesus e destacou especialmente a atitude daquele que voltou para agradecer. A celebração colocou em evidência temas muito próximos da vida de Zatti: o cuidado com o outro, a gratidão e a capacidade de caminhar junto com aqueles que sofrem.

Uma vida marcada pelo serviço

Artêmides Zatti morreu em Viedma, na Argentina, em 15 de março de 1951, depois de enfrentar um tumor maligno. Mesmo após receber o diagnóstico, continuou, enquanto teve forças, a cumprir sua missão junto aos doentes.

Sua trajetória mostra uma particularidade de sua espiritualidade: Zatti não separava a fé do serviço. Para ele, cuidar de uma pessoa enferma significava reconhecer nela a presença de Cristo.

Sua canonização, portanto, não está ligada apenas ao relato de uma cura extraordinária. O milagre reconhecido pela Igreja está associado a uma vida inteira dedicada aos enfermos, aos pobres e àqueles que muitas vezes não tinham quem cuidasse deles.

De imigrante italiano a enfermeiro na Patagônia, de doente a cuidador, de Salesiano Coadjutor a santo da Igreja, Artêmides Zatti fez do cuidado uma forma concreta de viver a fé. Sua história continua a recordar que, para ele, o encontro com Deus passava também pelo encontro com aqueles que sofrem.

Por Janaina Lima, com o apoio da equipe de Comunicação da Rede Salesiana Brasil

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