Encontro de Coordenadoras(es) de Comunicação das Américas
13/05/2024

Encontro de Coordenadoras(es) de Comunicação das Américas

Encontro de Coordenadoras(es) de Comunicação das Américas
Fotos: Equipe de Comunicação Social das Américas (ECOSAM)

De 5 a 8 de maio, aconteceu em Guadalajara (México), o encontro presencial da Equipe de Comunicação Social das Américas (ECOSAM), que reuniu 24 participantes provenientes de 19 Inspetorias do Continente americano. O encontro foi realizado no Centro de Espiritualidade Cruz del Apostolado (CECAP), dos Missionários do Espírito Santo, e contou com a importante presença da Conselheira Geral para a Comunicação Social do Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (FMA), Irmã Maria Ausilia De Siena. Entre os participantes, além das FMA, estavam presentes também um leigo e uma leiga que atualmente são Coordenadores de Comunicação das Inspetorias de Belo Horizonte (Brasil) e do México Norte.

O encontro teve por objetivo celebrar os 25 anos de ECOSAM e fortalecer a coesão, o compromisso e a estratégia comunicativa dos Coordenadores e Coordenadoras Inspetoriais de Comunicação, por meio da reflexão, da troca de experiência e conhecimento, a fim de potenciar estrategicamente a ação comunicativa no contexto específico da América Salesiana.

O encontro teve início na noite do dia 5, após o jantar, com a apresentação dos participantes e a oração inicial, que congregou a todos ao redor do tema da alegria do encontro.

Nos demais dias, os trabalhos foram iniciados em torno da Celebração Eucarística presidida pelo Salesiano, Padre Rogelio Aguado González, que motivou o grupo a buscar a santidade “hoje”, para comunicar a boa mensagem do Evangelho com alegria e coerência.

 

ECOSAM, TEMPO DE MEMÓRIA

O dia 6 de maio foi o “Dia da Memória” para ECOSAM. Irmã Maria Antonia Chinello, docente da Pontifícia Faculdade de Ciências da Educação – Auxilium, conectada desde Roma, compartilhou o caminho da Comunicação Social no Continente americano de 1992 a 2002, período no qual ela atuou no Âmbito da Comunicação, junto com Irmã Graciella Curti que foi a primeira Conselheira Geral para a Comunicação Social no Instituto FMA.

Sempre celebrando o “Dia da Memória”, houve a partilha de relatos sobre os caminhos e projetos de ECOSAM por meio de entrevistas gravadas em vídeo, primeiramente por parte de Irmã Giuseppina Teruggi, Conselheira Geral para a Comunicação Social de 2002 a 2014. Em seguida, por Irmã Susana Li, de Costa Rica, Coordenadora da ECOSAM de 2011 a 2017; Irmã Marcia Koffermann, do Brasil, Coordenadora da ECOSAM de 2018 a 2023; e Irmã María Baffundo, do Uruguai, membro da equipe de Coordenação da ECOSAM de 2014 a 2019.

Ainda no “Dia da Memória”, Coordenadores e Coordenadoras de Comunicação puderam contar com a presença de Irmã Marcia Koffermann FMA, Doutora em Comunicação pela Universidade de Huelva (Espanha), que desenvolveu o tema “Educomunicação e desinformação: estrutura frente à manipulação política e ideológica das redes sociais”. Em sua palestra, Irmã Marcia abordou sobre o percurso histórico e o contexto no qual surgiu o conceito de Educomunicação, e analisou também o contexto atual e sua relação com as mídias, suscitando vários questionamentos entre os participantes.

Na tarde do dia 6, o grupo vivenciou um momento específico de ação de graças pela vida e missão da ECOSAM e também se reuniu por Conferências Interinspetoriais para uma reflexão e partilha sobre o V ESA – Encontro da Escola Salesiana América – a partir da perspectiva comunicativa.

Entre as diferentes partilhas, destacam-se:

O trabalho interâmbitos, a implementação de ações conjuntas, éticas e salesianas que sejam um testemunho credível da sinodalidade (CINAB); O uso de formas modernas de comunicação com pais e jovens para ajudar a formá-los como bons cristãos e honestos cidadãos quanto ao uso positivo e aos perigos da atual tecnologia; formação do pensamento crítico, tanto para as FMA quanto para as jovens em formação (NAC); Educomunicação na perspectiva dos direitos humanos (CICSAL); Formação adequada no campo da comunicação para que a educação seja de qualidade (CIB); Tornar a Educomunicação presente em todas as dimensões e visível dentro das propostas pastorais das inspetorias, desenvolvimento do pensamento crítico, fortalecimento da educação ambiental, comunicação institucional (CIMAC).

Os trabalhos do dia foram concluídos com a oração da tarde e um momento mariano preparado e conduzido pelas Irmãs da Conferência NAC (Estados Unidos e Canadá).

 

PROFECIA DA PRESENÇA E PRESENÇA NAS REDES SOCIAIS

Já no segundo dia do encontro, a ECOSAM teve a oportunidade de escutar e aprofundar o tema “A profecia da presença”, apresentado pela Conselheira Geral, Irmã Ausilia De Siena. Em sua palestra, Irmã Ausilia, refletiu sobre o tema da presença a partir da Carta de Roma (1884) escrita por Dom Bosco, bem como do texto “O carisma educativo de Madre Mazzarello”, de autoria da FMA Irmã Piera Cavaglià.

A Conselheira também apresentou alguns tópicos de reflexão sobre o documento “Rumo à presença plena”, publicado pelo Dicastério da Comunicação do Vaticano, em maio de 2023. Deixou como questionamento ao grupo algumas perguntas: Como nos movemos neste mundo em constante mudança? Como garantir a qualidade da nossa presença? Quem é o meu próximo nas redes sociais? Como podemos contribuir para curar um ambiente digital tóxico? Como podemos refletir o “estilo” de Deus – que é um estilo de proximidade, de ternura e de compaixão – nas redes sociais?

Outro momento formativo de grande valor foi a palestra proferida pelo Doutor Padre Antonio Carrón de la Torre, sacerdote Agostiniano Recoleto, que vive em Roma e é Conselheiro Geral para as áreas de educação, apostolado social e comunicação. Conectado virtualmente, Antonio Carrón tratou o tema “Desenvolvimento de relacionamentos significativos e vínculos duradouros na era digital”.

Depois de abordar questões muito exigentes e desafiadoras, Padre Antonio deixou como propostas finais alguns tópicos: a importância da interioridade, a importância de encontrar-se e a importância do bom trato com todos.

Na parte da tarde, os participantes foram surpreendidos com a palestra “Estratégias digitais para a Evangelização - Visibilidade nas redes sociais”, proferida pelo Padre José Luis Gonzáles Santoscoy, mais conhecido como “Padre Pollo”.

A partir de dados concretos do mundo digital, Padre Pollo discorreu sobre as redes sociais Facebook, Instagram, Twitter – X, Tik Tok, WhatsApp – Telegram, indicando como funcionam e como estar presentes nela, com estratégias adequadas e intencionalidade, a fim de que a missão de evangelizar seja bem-sucedida.

Para concluir o encontro, os participantes, divididos em grupos segundo as redes sociais (Facebook, X, Youtube, Instagram, Tik Tok), refletiram sobre o Planejamento Estratégico da ECOSAM, indicando os passos dados até o momento, os passos a serem dados a partir de Guadalajara, e oferecendo para a equipe coordenadora sugestões para a continuidade das ações comunicativas.

Uma celebração de envio, organizada pela Conferência do Brasil e pautada no canto do Magnificat de Maria, encerrou o encontro da ECOSAM. Nela, o grupo avaliou os dias de Guadalajara, e a Conselheira Geral da Comunicação ofereceu a bênção de envio aos participantes. Também as Coordenadoras e Coordenadores fizeram o envio da Conselheira, com a bênção do texto bíblico de Números (6, 24-26), para que todos, fortalecidos, possam retornar às suas realidades e a missão de comunicar seja geradora de maior sinergia e sinodalidade como ECOSAM.

No dia 8, pela manhã, o grupo ainda se encontrou para a Celebração Eucarística de encerramento e, aos poucos, todos foram se despedindo e regressando às suas Inspetorias.

       

Por Irmã Maike Loes (FMA)

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A encíclica de Leão XIV: a IA deve servir à humanidade, não ao poder de poucos

No 135º aniversário da “Rerum novarum”, o Pontífice reflete, em sua primeira encíclica, “Magnifica humanitas”, sobre a Doutrina Social da Igreja na era da inteligência artificial. O apelo para preservar “uma magnífica humanidade habitada por Deus”, promovendo a verdade, a dignidade do trabalho, a justiça social e a paz. Na era digital, é preciso desarmar a IA e superar a teoria da “guerra justa”, relançando o diálogo e o multilateralismo “A magnífica humanidade criada por Deus encontra-se hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos”. O incipit da primeira encíclica de Leão XIV – Magnifica humanitas, “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial” – resume suas razões fundamentais e seu objetivo. Publicada hoje, segunda-feira, 25 de maio, foi assinada pelo Pontífice no último dia 15 de maio, no 135º aniversário da promulgação da Rerum novarum de Leão XIII. E de seu predecessor, o Papa Prevost recolheu a herança, escrevendo uma encíclica social que aborda um dos principais desafios da época contemporânea: a inteligência artificial. Dividida em cinco capítulos, Magnifica humanitas parte de um pressuposto: a tecnologia não é uma “força antagônica em relação à pessoa” (4), nem “um mal em si mesma” (9). No entanto, ela “não é neutra, pois assume o rosto daqueles que a concebem, a financiam, a regulam e a utilizam”. Daí, o apelo do Pontífice para “construir o bem” e “permanecer humanos”, seguindo a lógica da corresponsabilidade corajosa e da comunhão. A Doutrina Social da Igreja O primeiro capítulo – Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho – repercorre a Doutrina Social da Igreja (DSI) no magistério recente e no Concílio Vaticano II, destacando “o seu caráter dinâmico” (17). Longe de ser “um manual de princípios e normas a serem aplicados”, a DSI é antes uma “teologia da comunhão na história” (27) que orienta a leitura dos acontecimentos à luz do Evangelho. No segundo capítulo, Leão XIV enumera os Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja: entre os primeiros, inclui a dignidade da pessoa, criada à imagem e semelhança de Deus; a inviolabilidade dos direitos humanos, entre os quais o direito à vida “desde a concepção até ao seu fim natural”; o reconhecimento dos direitos das minorias, com especial atenção às mulheres, para que sejam verdadeiramente ouvidas e valorizadas (57). LEIA AQUI O TEXTO INTEGRALE DA ENCÍCLICA DE LEÃO XIV "MAGNIFICA HUMANITAS"  É inaceitável subjugar uma nação Quanto aos princípios da DSC, Leão XIV aponta cinco: o primeiro é o bem comum, “forma social da dignidade reconhecida a cada um” (59). Em um ponto, o Papa é particularmente firme: “A promoção do bem comum nunca pode ser separada do respeito ao direito dos povos de existir, de preservar sua identidade e de contribuir com sua originalidade para a família das nações”. Consequentemente, “qualquer tentativa ou projeto de eliminar ou subjugar uma nação é gravemente imoral e, portanto, inaceitável” (64). A tecnologia não deve estar nas mãos de poucos O segundo princípio diz respeito à destinação universal dos bens: aí e em outros pontos da encíclica, Leão XIV insiste na necessidade de que as tecnologias não se concentrem nas mãos de poucos, alimentando a disparidade entre os incluídos e os excluídos da revolução digital (67). Daí decorrem o terceiro e o quarto princípios, a saber, a subsidiariedade (68) – que exige a superação do paternalismo e do assistencialismo em favor da corresponsabilidade – e a solidariedade (73), “princípio e virtude” que se opõe à indiferença. A justiça social O quinto princípio da DSC é a justiça social: na era digital, ela deve garantir a todos um acesso equitativo às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o ódio e a desinformação e submeter o uso das tecnologias ao controle público. Leão XIV aponta os migrantes como um “teste decisivo” nesse campo: a maneira como a sociedade os trata demonstra “se a ideia de justiça é guiada pelo medo ou pela fraternidade”. Daí, o apelo tanto para salvaguardar “o direito à esperança” daqueles que são forçados a partir, garantindo-lhes vias seguras e legais, acolhimento digno e integração; quanto para promover “o direito de permanecer” de cada um em sua terra, em paz e segurança, enfrentando “as causas profundas” das migrações (81). O Pontífice entende que os cinco princípios acima mencionados se dirigem também à Igreja, chamada a “um exame de consciência”, a ouvir as “vítimas de abusos espirituais, econômicos, institucionais, sexuais, de poder e de consciência”, pois isso “é parte integrante de um caminho de justiça, que compreende o reconhecimento do dano, a reparação justa e a prevenção” (89). Um código ético para a IA O terceiro capítulo – Técnica e domínio. A grandeza da pessoa humana diante das promessas da IA – ressalta que é preciso abordar a IA com cautela, mantendo clareza sobre as responsabilidades em todas as suas etapas (accountability) e apostando em políticas e marcos jurídicos adequados, vigilância independente e educação dos usuários. Acima de tudo, é necessário um código ético submetido a critérios de justiça social compartilhada, pois “não serve uma IA mais moral se essa moral for decidida por poucos” (107). Sem deixar de lado o impacto ambiental das novas tecnologias, que exigem grandes quantidades de energia e água, afetando a Criação (101). Desarmar a IA É preciso “desarmar a IA” – prossegue Leão XIV – para subtraí-la à lógica da competição militar, econômica e cognitiva; para romper a equivalência entre poder técnico e direito de governar; para subtraí-la aos monopólios e impedir que domine o humano. Amplo espaço é dedicado à crítica do transumanismo e do pós-humanismo, que interpretam o progresso como a superação dos limites do humano. Em vez disso, o limite não é um defeito a ser eliminado, mas uma dimensão constitutiva da pessoa, pois é na fragilidade e na finitude que amadurecem a relação e a abertura a Deus e ao outro. Fazer a tecnologia crescer eliminando os limites do humano significa, portanto, fazer o coração regredir. Magnífica e, ainda assim, ferida, a humanidade “não deve ser substituída nem superada”. A tecnologia pode aliviar seus sofrimentos e abrir-lhe novas possibilidades, mas não deve negá-la naquilo que lhe é próprio: “a capacidade de relação e de amor” (126). Diante da IA, a verdadeira alternativa não está entre o entusiasmo e o medo, mas entre duas formas de construir o progresso: a serviço da pessoa e dos povos ou das lógicas do poder (129). Uma ecologia da comunicação No quarto capítulo – Preservar o humano na transformação. Verdade, trabalho, liberdade –, a encíclica defende uma “ecologia da comunicação” baseada na verdade. O Papa pede transparência nos critérios de seleção de conteúdos, proteção dos dados pessoais, um jornalismo sério fundamentado na argumentação e na verificação, uma nova consciência no uso “correto e crítico” da IA e a integração dos conhecimentos. Uma comunicação transparente e leal é exigida também da Igreja, sobretudo nos casos de injustiças e abusos. É fundamental também o apelo a uma aliança educativa renovada, para que nos jovens não se apague “o desejo de fazer perguntas” por causa de máquinas perfeitas que fazem parecer inútil o pensamento humano (140). Leão XIV pede ainda que se aposte na escola como lugar onde se aprende a “buscar e amar a verdade” (147). A dignidade do trabalho Na “quarta revolução industrial” representada pela transição digital, o Pontífice ressalta então a importância de proteger a dignidade do trabalho, projetando sistemas centrados na pessoa e não apenas no desempenho. A tecnologia pode certamente aliviar o homem de tarefas pesadas ou repetitivas, mas não deve levar ao desemprego em nome da redução de custos e do aumento do lucro. Nesse sentido, espera-se também uma renovação das organizações sindicais. Paz e desenvolvimento O Pontífice destaca, em seguida, a necessidade de superar o PIB como parâmetro do grau de desenvolvimento de um país, apostando, em vez disso, na dignidade do trabalho, na prosperidade compartilhada, na redução das desigualdades e na preservação do meio ambiente. A finança pela finança é, de fato, diferente da finança para o desenvolvimento (159-160). E, seguindo os passos de São Paulo VI, destaca-se a interdependência entre paz e desenvolvimento, almejando uma cooperação internacional capaz de definir estratégias comuns, sobretudo em favor dos países e dos grupos mais vulneráveis, pois a prosperidade contribui para a paz “somente se for difundida, inclusiva e sustentável” (163). É forte, ainda, a referência à família, fundada na união estável entre um homem e uma mulher: ela é “bem social primário”, “célula fundamental e insubstituível de toda organização comunitária” (165), que deve ser apoiada também por meio de políticas do trabalho em favor da estabilidade e de ritmos humanos, para assim proteger a capacidade social de “construir o futuro”. A “arquitetura da visibilidade” Por fim, a questão da liberdade humana: numa época em que as plataformas digitais são projetadas para capturar o tempo dos usuários e explorar suas fragilidades, é preciso fortalecer a liberdade interior de cada um, enfrentando também o risco do controle social decorrente da coleta massiva de dados e do uso de sistemas algorítmicos. Perfilar, prever e orientar comportamentos, de fato, é “um novo poder” (171) que corre o risco de discriminar os mais fracos. O Papa deplora, em particular, a “arquitetura da visibilidade” que amplifica apenas o que é visível, moldando as opiniões. Novas formas de escravidão e novo colonialismo A IA também gera novas formas de escravidão, como a dos “corpos marcados, mutilados, consumidos” (173) daqueles que trabalham na extração das “terras raras” necessárias à tecnologia. Portanto, a luta contra as novas formas de escravidão é outro “teste decisivo para o discernimento ético” da transformação digital. Leão XIV ressalta que “a Igreja renova sua firme condenação contra toda forma de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas”. Ao mesmo tempo, o Papa pede “sinceramente perdão” pelo atraso com que a Igreja, no passado, condenou “o flagelo da escravidão” (174-176). A encíclica também faz referência às “novas terras raras do poder”, ou seja, as informações vitais – por exemplo, sobre saúde e demografia – utilizadas para orientar estratégias econômicas: trata-se de uma face inédita do colonialismo que transforma vidas pessoais em informações exploráveis, tornando o ambiente digital um “espaço de predação” (178-179).   Superar a teoria da “guerra justa” No quinto capítulo — A cultura do poder e a civilização do amor —, Leão XIV volta seu olhar para a guerra: “A revolução digital está modificando a gramática dos conflitos” e, sem uma abordagem ética, as decisões sobre a vida e a morte das pessoas serão cada vez mais impessoais, com o recurso à força considerado uma “opção imediata e viável” (182-183). Na base de tudo está uma “cultura do poder” que normaliza a guerra e a reabilita como “instrumento de política internacional”, favorecendo o rearmamento. Sobre a opinião pública pesam hoje também as narrativas midiáticas polarizadoras, bem como “uma preocupante perda de memória histórica” que priva de uma visão de longo prazo (191). Consequentemente, hoje a paz não é mais entendida como uma tarefa a ser assumida, mas como um intervalo entre os conflitos. Por isso, Leão XIV reitera que – sem prejuízo do direito à legítima defesa no sentido mais estrito – é preciso superar a teoria da “guerra justa”, promovendo, em vez disso, o diálogo, a diplomacia e o perdão (192). Nenhum algoritmo torna a guerra moralmente aceitável O Papa Prevost não deixa de deplorar o crescimento da indústria bélica, a corrida aos armamentos nucleares e o surgimento de novos atores armados – entre os quais os jihadistas – que visam perpetuar os conflitos como fonte de poder e de renda. É clara, ainda, a advertência contra o uso de armas ligadas à IA, pois “não existe algoritmo que possa tornar a guerra moralmente aceitável”. São necessárias restrições éticas rigorosas, compartilhadas internacionalmente, baseadas na responsabilidade pessoal e na proteção dos civis, pois “toda tecnologia que facilita atacar sem ver o rosto do outro abaixa o limiar moral do conflito” (199). A crise do multilateralismo A cultura do poder decorre também da crise do multilateralismo e do surgimento de um “multipolarismo desordenado e conflituoso” (201). A força do direito é substituída pelo direito do mais forte; as lógicas do poder prevalecem sobre a construção da paz e as instituições criadas para zelar pelo destino comum dos povos estão agora enfraquecidas. A esse respeito, o Papa deseja para a ONU “reformas profundas” que superem a atual crise de valores em favor do bem comum (226). A civilização do amor O cristão é chamado a responder à cultura do poder construindo “a civilização do amor” e escolhendo entre alimentar a lógica da força ou zelar pela paz. O Papa aponta cinco “caminhos de responsabilidade”: desarmar as palavras dizendo a verdade; construir a paz na justiça; assumir o olhar das vítimas tomando posição, pois há conflitos em que “não é justo permanecer neutro”; cultivar “um saudável realismo” que busque caminhos de paz viáveis com os fatos, não apenas com palavras. Por fim, relançar o diálogo, passando de uma cultura do poder para uma cultura da negociação. É decisivo também “o diálogo entre as religiões”, portador de uma mensagem de paz: “Quem usa o nome de Deus para legitimar o terrorismo, a violência ou a guerra trai o seu rosto” é a advertência de Leão XIV (223). A magnífica humanidade Ao concluir a carta, o Pontífice convida os fiéis a viver as novas tecnologias à luz do Evangelho, seguindo “um itinerário de vida cristã sóbrio e exigente”. Para que, mesmo na era da IA, todos possam testemunhar “a beleza de uma magnífica humanidade habitada por Deus”. Fonte: Isabella Piro – Vatican News

P. Costantino Vendrame é declarado Venerável

Papa Leão XIV reconhece as virtudes heroicas do missionário salesiano que dedicou mais de três décadas à evangelização no nordeste da Índia, tornando-se referência de caridade, esperança e santidade entre os povos. Resumo O Papa Leão XIV autorizou a promulgação do decreto que reconhece as virtudes heroicas do Servo de Deus Padre Constantino Vendrame, SDB, declarando-o Venerável. Nascido na Itália, em 1893, ingressou na Congregação Salesiana motivado pelo ideal missionário e foi ordenado sacerdote em 1924. Atuou por mais de 30 anos no nordeste da Índia, dedicando-se à evangelização das populações mais pobres e distantes, percorrendo longas distâncias para levar o anúncio do Evangelho. Tornou-se amplamente reconhecido pela vida de oração, pela caridade incansável, pelo espírito de serviço e pela proximidade com pessoas de diferentes tradições religiosas. Durante a Segunda Guerra Mundial, enfrentou o internamento como cidadão italiano em território britânico, destacando-se pela fortaleza espiritual e pelo apoio oferecido aos companheiros. Viveu seus últimos anos marcado pelo sofrimento físico, oferecendo suas dores com espírito de fé até falecer em Dibrugarh, na Índia, em 30 de janeiro de 1957. A declaração de venerabilidade foi acolhida com alegria na Itália, na Arquidiocese de Shillong e por toda a Família Salesiana, que vê no missionário um testemunho exemplar do carisma de Dom Bosco. Segundo o Postulador-Geral das Causas dos Santos da Família Salesiana, Padre Pierluigi Cameorni, o reconhecimento destaca Padre Vendrame como um “missionário da esperança entre os povos”, profundamente unido ao Coração de Cristo, ao Espírito Santo e à devoção a Maria Auxiliadora.   Em 22 de maio de 2026, o Santo Padre Leão XIV recebeu em audiência o Cardeal Marcello Semeraro, Prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos. Na ocasião, o Sumo Pontífice autorizou o mesmo Dicastério a promulgar o Decreto relativo às virtudes heroicas do Servo de Deus Costantino (Constantino) Vendrame, Sacerdote professo da Sociedade de São Francisco de Sales, nascido em San Martino di Colle Umberto (Treviso-Itália), em 27 de agosto de 1893, e falecido em Dibrugarh, na Índia, em 30 de janeiro de 1957. O P. Constantino Vendrame nasceu de família de condição humilde, mas marcada por sólidos valores cristãos, provada pela doença e por perdas familiares. Desde muito jovem, sentiu o chamado ao sacerdócio e ingressou, em 1908, no seminário da Diocese de Ceneda (Vittorio Veneto), passando, em 1912, para os Salesianos de Dom Bosco, movido pelo amor às missões e pelo desejo de partir como missionário. Noviço em 1913, professou os votos temporários em 1914 e os perpétuos em 1920, formando-se na vida religiosa por meio do tirocínio prático. Durante a Primeira Guerra Mundial, destacou-se como soldado exemplar, mantendo fidelidade à própria vocação. Ordenado sacerdote em 15 de março de 1924, em Milão, recebeu, em 5 de outubro do mesmo ano, o crucifixo missionário em Turim, na Basílica de Maria Auxiliadora. Partiu então para o nordeste da Índia (Assam), chegando a Shillong em 24 de dezembro de 1924. Atuou como missionário – e, na maioria das vezes, como pároco, em Shillong-Laitumkhrah, Jowai, Wandiwash, no Tamil Nadu (sul da Índia), e, por fim, em Shillong-Mawkhar, onde permaneceu, de 1951 até à morte. O P. Vendrame tornou-se uma figura lendária: missionário itinerante, percorria a pé longas distâncias para chegar aos povoados mais remotos, fazendo-se “pobre entre os pobres” e acolhendo com serenidade o desgaste das fadigas e os riscos da vida apostólica. Homem de diálogo, atraía multidões a Cristo por meio da caridade, evangelizando aldeia por aldeia, casa por casa. Sua figura era respeitada não apenas pelos cristãos, mas também por pessoas de outras tradições religiosas, que o reconheciam como um verdadeiro homem de Deus. Durante a Segunda Guerra Mundial, na condição de cidadão italiano em território do Império Britânico, viu-se obrigado a interromper sua ação missionária e foi internado com outros compatriotas: inicialmente sob custódia dos Gurkhas, depois em Deoli e, por fim, em Dehra Dun. Nesse período de aparente imobilidade, evidenciou uma notável fortaleza interior, tornando-se referência de consolo e apoio. Acometido por artrose, inclusive na coluna vertebral, e marcado por intensas dores até a episódios de desmaio, viveu os últimos meses em total espírito de oferta. Internado em Dibrugarh, faleceu na véspera da Festa de São João Bosco, em 30 de janeiro de 1957. Seus funerais transformaram-se numa expressiva manifestação de Fé e gratidão. Já em vida, era acompanhado por ampla fama de santidade e por sinais extraordinários, comparado a São Paulo, São Francisco Xavier e São Vicente de Paulo. Sobre ele, afirmou-se: “Recordamos o P. Vendrame como um sacerdote que nos amou com o coração de Cristo: humano e ardente, firme e fiel, sempre pronto a dar a vida por nós”. A notícia da declaração de venerabilidade foi acolhida com grande alegria em sua cidade natal, San Martino di Colle Umberto, e na Diocese de Vittorio Veneto, que sempre promoveram com dedicação a Causa de Beatificação do seu conterrâneo. Também a Arquidiocese de Shillong e a Família Salesiana do nordeste da Índia celebram este reconhecimento, que confirma uma história marcada por intensa ação missionária e santidade vivida segundo o espírito apostólico de Dom Bosco. “A venerabilidade de P. Vendrame, declarou o P. Pierluigi Cameorni, Postulador-Geral para as Causas dos Santos da Família Salesiana, representa o reconhecimento de um missionário da esperança entre os povos. Por meio do contato pessoal, transmitiu o amor do Coração compassivo do Senhor, convicto de que ‘o Coração de Cristo […] é o núcleo vivo do primeiro anúncio’ (Enc. Dilexit nos, 32). Alimentando-se dessa fonte, levou com ardor apostólico a mesma consolação de Deus, que abraça o mundo inteiro. Cabe ainda recordar que a venerabilidade do P. Vendrame foi reconhecida durante a novena de Pentecostes e a de Maria Auxiliadora, que neste ano coincidem. O P. Vendrame, além de ardoroso apóstolo do Sagrado Coração, foi um missionário dócil à ação do Espírito Santo e um filho devoto da Auxiliadora, no espírito de Dom Bosco Santo”. Fonte: Inspetoria Salesiana de São Paulo

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