Primeiro dia do Encontro Nacional de Comunicação reúne lideranças e comunicadores das presenças salesianas para refletir sobre presença, humanidade e identidade salesiana na cultura digital
A comunicação salesiana entrou em uma nova etapa de reflexão nesta quarta-feira (26), com a abertura do ENAC 2026 – Encontro Nacional de Comunicação, promovido pela Rede Salesiana Brasil (RSB). Reunindo comunicadores, lideranças e representantes das Inspetorias dos Salesianos de Dom Bosco e das Filhas de Maria Auxiliadora, o encontro propõe um olhar estratégico sobre os desafios da comunicação em uma sociedade marcada pela transformação digital e pelo avanço da inteligência artificial.
Com o tema central voltado à comunicação e à presença salesiana no mundo contemporâneo, o primeiro dia do ENAC colocou uma questão fundamental no centro do debate: como utilizar as novas tecnologias sem perder aquilo que caracteriza a comunicação salesiana, a presença, o encontro e a capacidade de reconhecer cada pessoa em sua singularidade?
A programação foi aberta pelo Pe. Francisco Inácio, Inspetor Referente da Comunicação, seguida pela mensagem da Ir. Maria Carmelita, Inspetora e Referente da Comunicação, lida pela mediadora do evento, Ir. Kelly Gaioso de Andrade. Também participaram da abertura o Pe. Sérgio Baldin, Diretor Executivo da RSB, e Thiago Santos, Gestor de Comunicação da Rede Salesiana Brasil.
Uma história construída em Rede
Na sequência, Thiago Santos apresentou um panorama histórico do ENAC, retomando os caminhos percorridos pelo encontro ao longo de sua trajetória e apontando perspectivas para o futuro da comunicação salesiana no Brasil.
Ao revisitar essa caminhada, o gestor destacou a evolução da comunicação dentro da Rede e a importância de compreender o ENAC não apenas como um evento, mas como um espaço de construção coletiva, alinhamento e fortalecimento da identidade comunicacional salesiana.
A reflexão preparou o terreno para um dos principais temas do encontro: a necessidade de ressignificar a presença salesiana diante de uma sociedade em rápida transformação.
A comunicação como presença
O primeiro grande momento formativo do dia foi conduzido pelo Pe. Rafael Bejarano Rivera, SDB, Conselheiro Geral para a Pastoral Juvenil, com a conferência “A Comunicação como Sacramento da Presença: do Sonho de Dom Bosco à Era da Inteligência Artificial”.
A partir da experiência salesiana e da perspectiva da Pastoral Juvenil, Pe. Rafael lembrou que a comunicação precisa estar conectada à própria essência da missão.
Para ele, não basta produzir conteúdos ou ampliar a presença nos diferentes canais. É necessário compreender que a comunicação começa na capacidade de reconhecer, escutar e acolher.
“Nenhum jovem é apenas um dado, um perfil ou uma audiência”, destacou.
A reflexão também aproximou os ambientes tradicionais da missão salesiana do universo digital. A casa que acolhe, a paróquia que evangeliza, a escola que educa e o pátio onde acontece o encontro continuam sendo referências fundamentais. A diferença é que, atualmente, a internet também faz parte desses espaços de presença.
Nesse contexto, o avanço da inteligência artificial não deve ser compreendido apenas como uma questão tecnológica.
Para Pe. Rafael, o Sistema Preventivo de Dom Bosco pode oferecer critérios para orientar a utilização dessas novas ferramentas, especialmente quando se trata de preservar a centralidade da pessoa e a qualidade dos relacionamentos.
“A inteligência artificial pode fazer muitas coisas, mas somos nós, como seres humanos, que precisamos continuar definindo a natureza de nossos relacionamentos uns com os outros”, afirmou.
A provocação também alcançou o papel dos profissionais de comunicação. Mais do que especialistas em ferramentas e plataformas, o comunicador salesiano precisa manter sua dimensão educativa e humana.
“Precisamos continuar fortalecendo o perfil do comunicador salesiano, para que possamos continuar sendo não apenas especialistas, mas também educadores, modelos adultos para os jovens”, ressaltou.
Da tecnologia à pergunta sobre o futuro da humanidade
A segunda conferência do dia aprofundou ainda mais essa perspectiva. O Prof. Dr. Ricardo Mariz, consultor da Rede Salesiana Brasil, conduziu a reflexão “O Contexto da Sociedade e a Urgência do Humano na Comunicação em tempos de IA”.
Em vez de concentrar a discussão apenas nas ferramentas, nos aplicativos ou na elaboração de comandos para sistemas de inteligência artificial, o professor propôs uma pergunta mais profunda: que humanidade queremos construir para as próximas gerações?
Segundo Ricardo Mariz, a atual transformação digital representa uma oportunidade para avançar em uma nova camada de humanidade, mas também traz o risco de desumanização.
“Cultura digital é responder que humanidade nós queremos nos humanos do futuro”, afirmou.
A reflexão também trouxe a importância de recuperar o sentido da comunicação. Para o professor, comunicar não começa pela escolha da plataforma ou pela definição da técnica, mas pela existência de algo relevante a ser compartilhado.
“Comunica melhor quem tem um tema para perseguir, quem tem uma causa para perseguir”, destacou.
A partir dessa perspectiva, a tecnologia passa a ocupar seu devido lugar: como meio, e não como finalidade.
Se existe uma causa, existe algo a comunicar. A partir daí entram as decisões sobre como, onde, quando e com que intensidade comunicar.
O humano como critério
As duas conferências convergiram para uma mesma provocação: em uma sociedade cada vez mais mediada por tecnologias, a comunicação salesiana precisa reforçar justamente aquilo que nenhuma ferramenta consegue substituir — a presença humana, a escuta, o vínculo e o encontro.
Nesse sentido, o avanço da inteligência artificial não representa apenas um desafio para os profissionais de comunicação. Ele coloca diante da própria Rede uma oportunidade de revisitar sua identidade e compreender como o carisma de Dom Bosco pode continuar oferecendo respostas para uma realidade em transformação.
A comunicação, portanto, deixa de ser compreendida apenas como divulgação das ações realizadas pelas obras e passa a assumir um papel estratégico na própria missão institucional.
Reflexão que continua
Após as conferências, os participantes foram convidados a registrar suas percepções e aprendizados em um mural digital, conduzido pela Ir. Kelly Gaioso de Andrade, Coordenadora de Comunicação da Inspetoria Maria Auxiliadora.
O primeiro dia foi encerrado com um momento de avaliação, também conduzido por Ir. Kelly, consolidando as principais reflexões e preparando os participantes para a continuidade da programação.
Mais do que discutir inteligência artificial, o primeiro dia do ENAC 2026 colocou em pauta uma questão essencial para o futuro da comunicação salesiana: como estar presente em uma sociedade cada vez mais digital sem deixar de ser profundamente humana?
A resposta, ao menos para este primeiro dia, parece partir de um princípio fundamental: a tecnologia pode ampliar a voz da Rede, mas é a presença que dá sentido àquilo que ela comunica.