Santidade Salesiana

São João Bosco

Nascimento: 16/08/1815 Beatificado: 16/08/1815 Canonizado: 01/04/1934 Celebração litúrgica: 31/01/1915

João Melquior Bosco nasceu do segundo casamento de Francisco Bosco com Margarida Occhiena, em 16 de agosto de 1815, e foi batizado no dia seguinte como João Melchior Bosco. O pai era inquilino dos Biglione e habitava numa de suas casas nos Becchi, território de Morialdo, povoado de Castelnuovo d’Asti. Morrendo de pneumonia em 11 de maio de 1817, Francisco deixou aos cuidados da esposa Margarida os seus três filhos: Antonio, nascido em 1808; José, nascido em 1813, ambos da primeira esposa, Margarida Cagliero; e João. A pequena família, transferida para uma pequena edificação rural adaptada como habitação, passou anos difíceis em tempos de circunstâncias desfavoráveis para o mundo agrícola. Joãozinho, educado pela mãe com profundo discernimento humano e cristão, foi dotado pela Providência de dons, que fazem dele, desde os primeiros anos, o amigo generoso e diligente de seus conhecidos. Entretanto, devido às penúrias familiares e as tensões com o meio-irmão Antônio, pelas suas inclinações ao estudo, foi enviado, de fevereiro de 1828 a novembro de 1829, a trabalhar como ajudante na granja Moglia.

Retornando em família, graças ao apoio do velho capelão Pe. João Calosso, foi-lhe permitido continuar os estudos elementares em Castelnuovo e os humanistas no Régio Colégio de Chieri. Desde criança, ele sentiu ter recebido uma vocação especial e ser assistido e quase guiado pela mão, para realizar a sua missão, pelo Senhor e pela intervenção da Virgem Maria, que desde o sonho profético dos nove anos lhe indicam o campo de trabalho e a missão a realizar. Sua juventude é assim a antecipação de uma extraordinária vocação educativa e pastoral. Apóstolo entre os colegas, funda nos anos de escola em Chieri a Sociedade da Alegria. Desde criança, sente o chamado a configurar-se de maneira perfeita à figura de Cristo Bom Pastor, e essa identificação amadurecerá ao longo de toda a sua existência com uma progressiva encarnação do ministério sacerdotal segundo uma modalidade própria: ser sinal do Bom Pastor para os jovens e para a gente do povo. Aos vinte anos, em 1835, faz a opção definitiva: entra no seminário episcopal de Chieri. Os anos de seminário foram para ele anos de trabalho espiritual, se não por outro motivo, porque o ambiente disciplinado e o ensinamento teológico moral rigorista contrastavam com o seu temperamento levado à liberdade expansiva e à inventiva no campo operativo. No seminário, João Bosco assimilou os valores que o austero regulamento e a tradição formativa propunham aos jovens clérigos: estudo intenso, espírito de sincera piedade, vida retirada, obediência, disciplina interior e exterior. Entretanto, pôde contar com o conhecimento do padre José Cafasso, também natural de Castelnuovo e colaborador do teólogo Luís Guala em Turim, no “Colégio Eclesiástico de São Francisco de Assis”, destinado ao aperfeiçoamento do clero jovem na prática pastoral. Até o fim de sua vida, Cafasso será para Dom Bosco mestre de teologia moral e de “pastoral prática”, e também confessor, diretor espiritual, conselheiro.

Ordenado sacerdote em Turim pelo arcebispo Luís Fransoni em 5 de junho de 1841, Dom Bosco passou o verão e o outono entre os Becchi e Castelnuovo auxiliando o pároco. Em novembro, preferiu retornar a Turim, ao Colégio Eclesiástico, para ali fazer o triênio de aperfeiçoamento teórico e prático. Recebeu uma qualificação pastoral teórica e prática e consolidou a sua vida interior. Aspectos relevantes desta espiritualidade sacerdotal propugnada por Cafasso são: centralidade do serviço divino, animado pelo profundo amor do Senhor, pelo desejo de conformação com a divina vontade, pela total disponibilidade ao seu serviço com prontidão, exatidão e delicadeza; espírito de oração, doçura e caridade, de pobreza, desapego e mortificação, de humildade e trabalho intenso; entrega absoluta de si no cuidado pastoral do próximo, zelo incansável para acolher, aproximar-se, buscar, animar, exortar, instruir; tendência missionária; dedicação sem pausa à pregação, à catequese, ao sacramento da penitência; terna devoção mariana, sentido de pertença eclesial e devoção ao Papa e aos pastores da Igreja. Além da formação moral, o novel sacerdote dedicou-se à instrução catequética dos meninos e acompanhou o padre Cafasso na assistência espiritual aos jovens encarcerados nas prisões da cidade.

O jovem sacerdote torna-se também sempre mais envolvido nas profundas e complexas mudanças políticas, sociais e culturais que marcarão toda a sua vida: movimentos revolucionários, guerra e êxodo da população dos campos para as cidades são fatores que incidem nas condições de vida do povo, especialmente se pertencente às camadas mais pobres. Concentrados nas periferias das cidades, os pobres em geral e os jovens em particular tornam-se objeto de abuso ou vítimas do desemprego; durante o seu desenvolvimento humano, moral, religioso, profissional, são acompanhados de maneira insuficiente e muitas vezes não são cuidados de modo nenhum. Sensíveis a qualquer mudança, os jovens ficam muitas vezes inseguros e perdidos. Diante desta massa desenraizada, a educação tradicional fica perplexa: filantropos, educadores e eclesiásticos esforçam-se para ir, por vários títulos, ao encontro das novas necessidades.

Em outubro de 1844, Dom Bosco obtém o emprego de capelão, primeiramente da Obra do Refúgio e, depois, do pequeno Orfanato de Santa Filomena, dois institutos femininos fundados por Júlia Colbert, marquesa di Barolo, ambos a nordeste da cidade, não distantes da Pequena Casa da Divina Providência, do cônego José Cottolengo, e não longe da “Porta Palácio”, local de um grande mercado da cidade. Dom Bosco acolhe, em sua nova residência, os jovens que se afeiçoaram a eleno Colégio Eclesiástico; serventes de pedreiro, aprendizes, estudantes e como estrelas no céu imigrantes afluem em número sempre crescente. Graças às capacidades pessoais, ele os entretêm empenhando-se diretamente em seus divertimentos e obtendo a participação deles nos momentos de instrução religiosa e de culto. Às reuniões feitas no Refúgio, dá o nome de “catecismo” e, depois, estavelmente, de “Oratório de São Francisco de Sales”.

Dotado de uma feliz intuição realista e conhecedor atento da história da Igreja, ele tira do conhecimento dessas situações e das experiências de outros apóstolos, especialmente de São Felipe Neri e de São Carlos Borromeu, a fórmula do “oratório”. Para ele, este título é singularmente caro: o Oratório caracterizará toda a sua obra, e ele o modelará segundo uma perspectiva pessoal, adaptada ao ambiente, aos seus jovens e às suas necessidades. Como principal protetor e modelo dos colaboradores, escolhe São Francisco de Sales, o santo de zelo multiforme e humaníssima bondade manifestada, sobretudo, na doçura do acolhimento.

O Oratório torna-se itinerante nos anos 1845-1846, embora gravitando na região entre os prados degradados de Valdocco em direção ao Dora Riparia e Porta Palácio, onde era mais fácil manter contato com os jovens. Em Valdocco, Dom Bosco estabelece-se definitivamente na primavera de 1846, de início, em poucas salas e um galpão adaptado como capela, alugados numa construção da extrema periferia (a casa Pinardi); em seguida, com a aquisição de todo o edifício e do terreno adjacente. Já naqueles anos ele dá ênfase ao lema “Da mihi animas caetera tolle” (que se habituou a traduzir: “Senhor, dai-me almas e ficai com todas as outras coisas”), e o teve como muito importante e significativo a ponto de fazê-lo reproduzir num cartaz fixado em seu quarto até os últimos dias de sua vida. O Oratório de Valdocco inspirava-se no do “Anjo da Guarda”, aberto em 1840 pelo padre Cocchi às margens do bairro de Vanchiglia. Dada a simpatia obtida pelos dois primeiros oratórios, um terceiro intitulado a “S. Luís Gonzaga” foi aberto em 1847, na região de Porta Nova. A “Obra dos Oratórios”, iniciada em 1841, com um “simples catecismo”, expande-se progressivamente para responder a situações e exigências prementes: internato para acolher os abandonados, oficina e escola de artes e ofícios para ensinar-lhes um trabalho e torná-los capazes de ganhar a vida honestamente, escola humanista aberta ao ideal vocacional, boa imprensa, iniciativas e métodos recreativos próprios da época (teatro, banda, canto, passeios outonais), para favorecer o desenvolvimento sadio dos meninos.

Também para os oratórios 1848 (ano de grandes convulsões político- sociais) foi um período de crise. Padre Cocchi inclinava-se a compartilhar os entusiasmos patrióticos dos jovens; Dom Bosco manteve-se mais cauteloso e atento à linha de oposição assumida pelo arcebispo Fransoni. A retomada aconteceu ao redor de 1850, graças à tenacidade de eclesiásticos e leigos seus colaboradores (entre eles, o teólogo João Batista Borel e os primos Roberto e Leonardo Murialdo). Por iniciativa de Fransoni, agora no exílio em Lyon, Dom Bosco é nomeado em 1852 “diretor-chefe espiritual” dos três oratórios masculinos de Valdocco, Porta Nova e Vanchiglia. Dado o aumento da afluência juvenil nos oratórios, com o apoio da população e das autoridades da cidade, pôdese substituir o galpão-capela de Valdocco por uma igreja mais ampla intitulada a São Francisco de Sales (1851-52), e, depois, empenhar-se na aquisição de novos terrenos e na construção de uma “Casa anexa ao oratório”, para acolher e instruir tanto os jovens estudantes como os aprendizes de alguns ofícios mais auspiciosos: sapateiros e alfaiates (1853), encadernadores (1854), marceneiros (1856), tipógrafos (1861), artesãos e ferreiros (1862). Após o ano da cólera (1854), a população juvenil hospedada na escola-internato de Valdocco superou rapidamente uma centena e chegou a mais de oitocentas pessoas em 1868. Nesse ano, por iniciativa e empenho de Dom Bosco, foi consagrada no terreno do Oratório de Valdocco uma grande igreja dedicada a Maria Auxiliadora (Auxilium Christianorum) destinada aos jovens e às necessidades espirituais do bairro. Para a defesa e a promoção da fé entre o povo cristão, ele instituiu em 1869 a Associação dos Devotos de Maria Auxiliadora.

O conjunto destas realizações permitiu a Dom Bosco lançar os mais variados apelos na intenção de mobilizar consensos e ajudas financeiras; a partir de 1853, organizou sorteios de beneficência obtendo entradas que lhe permitiram aumentar e melhorar os edifícios dos oratórios e acolher, gratuitamente ou quase, jovens aprendizes e estudantes das classes ginasiais. Em apelos endereçados à população em geral, ele declarava que desejava formar “cidadãos honestos e bons cristãos”. Quando se dirigia às autoridades políticas e administrativas, pedia apoios e subsídios para obras que visassem prevenir a delinquência de menores, tirar da rua os jovens que, de outra forma, acabariam nas prisões, formar cidadãos úteis à sociedade. Eram fórmulas que, depois, se condensaram no seu escrito pedagógico mais conhecido: O sistema preventivo na educação da juventude (Turim, 1877). A feliz expressão: “Basta que sejam jovens para que eu os ame muito” é a palavra e, antes ainda, a opção educativa fundamental do santo: “Prometi a Deus que até o meu último respiro seria pelos meus pobres jovens”. E, de fato, ele desenvol como estrelas no céu veu uma impressionante atividade com palavras, escritos, instituições, viagens, encontros com personalidades civis e religiosas, manifestando principalmente uma cuidadosa atenção voltada aos jovens para que eles pudessem ver no seu amor de pai o sinal de um Amor mais elevado.

Dom Bosco começa a distinguir-se também com a publicaçã de alguns opúsculos destinados aos jovens e reeditados muitas vezes: História Eclesiástica para uso das escolas (1845), História Sagrada par uso das escolas (1847), O Jovem Instruído na prática dos seus deveres (1847), O Sistema métrico decimal reduzido à simplicidade (1849). Em 1853, com o apoio do bispo de Ivrea, L. Moreno, inicia a publicação das Leituras Católicas, coleção de pequenos fascículos periódicos de formato pequeno, em média com uma centena de páginas, de caráter monográfico, redigidos em estilo facilmente acessível a leitores de primeira alfabetização do mundo do trabalho manual e agrícola. Nas Leituras Católicas, Dom Bosco concentra grande parte de seus escritos apologéticos, catequéticos, devocionais e hagiográficos visando apresentar de modo positivo a Igreja Católica, o Papado, a obra dos oratórios. A Lei Casati (1859), que dispõe sobre a obrigação da organização escolar nas Cidades, ofereceu a Dom Bosco a ocasião de alargar o campo das suas iniciativas. Depois da experiência de pequenos seminários episcopais administrados sob a sua responsabilidade (Giaveno, diocese de Turim, em 1859, e Mirabello Monferrato, na diocese de Casale, em 1863, transferido em 1870 a Borgo San Martino), ele caminhou com mais decisão pelo terreno das escolas públicas, oferecendo-se para administrar sob a sua responsabilidade alguns colégios-internatos municipais; foi a vez de Lanzo Torinese (1864), Cherasco (1869), Alassio (1870), Varazze (1871), Vallecrosia (1875), institutos que, por norma, tinham um oratório anexo, que se acrescentava aos demais que, por vários títulos, eram legalmente reconhecidos como internatos de beneficência ou escolas privadas (em 1872, Genova – Sampierdarena, etc.). Dom Bosco, portanto, não foi um padre que se deixou paralisar pelas situações instáveis e mutáveis em que vivia, mas um padre que, justamente estas situações e circunstâncias, soube ser ministro do Senhor, filho da Igreja, apóstolo de Cristo no anúncio do Evangelho, na acolhida dos pobres e, sobretudo, na predileção pelos meninos e jovens. Pode-se sublinhar a sua audácia, a sua atividade, a sua fantasia inspiradora de soluções, mas jamais se pode separar estas qualidades tão visíveis do homem Dom Bosco da sua riqueza interior substanciada por vigorosa e rigorosa ascese, de profundo sentido de fé e também de contínua dedicação ao ministério na Igreja. Esta harmonia entre os dotes humanos e os recursos misteriosos da fé e da graça caracterizou o seu sacerdócio, tornando-o tão resplendente e tão fecundo. Nele, a simbiose entre ação e contemplação aparecia como consequência lógica do sacerdócio ministerial. Em sua vida, não havia lugar para dualismos problemáticos, mas apenas para obedecer ao Espírito, ser tocado pelas urgências da caridade, continuamente nutrido e substanciado por uma força que derivava da oração e da Eucaristia, que o tornava incansável, mesmo vivendo ele próprio uma misteriosa consumação do seu ser pelo bem da Igreja e da juventude.

Fechado o seminário metropolitano por ordem de dom Fransoni (1848), Dom Bosco oferece hospedagem aos clérigos diocesanos que seguiam na cidade as aulas dadas por professores do seminário. A estes clérigos era natural que se acrescentassem os meninos dos oratórios que entravam na carreira eclesiástica. De Valdocco e de seus outros colégios, com ele ainda em vida, saíram cerca de 2.500 sacerdotes para as dioceses do Piemonte e da Ligúria. O exemplo e o encorajamento de Dom Bosco levam muitos bispos a superar hesitações devidas a problemas econômicos e abrir ou reorganizar seminários menores. Diversos reitores aprenderam dele a utilização de instrumentos pedagógicos e espirituais, idôneos à formação dos jovens sacerdotes, como a bondade (amorevolezza) e a assistência paterna que suscitam confiança, a confissão frequente e a comunhão, a piedade eucarística e mariana. Singular para os tempos, e mais tarde imitado por muitos, foi o cuidado específico pelas vocações adultas com a instituição de seminários e escolas adequados. Estas circunstâncias se prolongaram até além de 1860 e permitiram a Dom Bosco ter um pessoal mais estável e mais sintonizado com os seus métodos educativos para os oratórios e as escolas. Amadureceu assim o plano de substituir à Sociedade ou Congregação dos Oratórios, formada em geral por eclesiásticos e leigos de boa vontade, por um grupo recrutado entre os seus clérigos e colaboradores leigos. Vivia-se nos anos do debate político que levou nos Estados Sardos à supressão de ordens religiosas e outras entidades eclesiásticas. Seguindo o conselho de Urbano Ratazzi, Dom Bosco pensou numa associação de pessoas que, sem renunciar aos direitos civis, se propusesse uma finalidade de bem público, e mais concretamente a educação da juventude mais pobre e abandonada. No interior do grupo, porém, Dom Bosco, dava coesão às finalidades comuns com vínculos religiosos. Para aos seus Salesianos elaborou então a fórmula: “Cidadãos peranteo Estado; religiosos perante a Igreja”. Em Roma, em fevereiro de 1858, foi recebido por aqueles que o conheciam como diretor das Leituras Católicas e de florescentes oratórios juvenis, ou também pela fama de santo sacerdote e taumaturgo. Obtida uma audiência pontifícia, entrou em sintonia com Pio IX e recebeu dele ardorosos encorajamentos para os seus projetos. Em 18 de dezembro de 1859, com outros dezoito jovens, deu início oficial à Sociedade de São Francisco de Sales. Em 1864, obteve de Roma o Decretum laudis para a Pia Sociedade de São Francisco de Sales e o início das práticas para o respectivo exame das Regras ou Constituições; em 1869, a aprovação pontifícia da Sociedade Salesiana e em 1874, das Regras ou Constituições.

Segundo os mesmos critérios e com o mesmo espírito, Dom Bosco procurou encontrar uma solução também para os problemas da juventude feminina. O Senhor suscitou ao seu lado uma cofundadora: Maria Domingas Mazzarello, hoje santa, coadjuvada por um grupo de jovens companheiras já dedicadas, na paróquia de Mornese (Alessandria, Itália), à formação cristã das meninas. Em 5 de agosto de 1872, funda, com Maria Mazzarello, as Filhas de Maria Auxiliadora.

Nos anos seguintes, com o apoio das mais variadas instituições públicas e privadas, pôde abrir oratórios, colégios, internatos, escolas agrícolas, além de na Itália, também em vários países da Europa: Nice (1875), La Navarre (1878), Marselha (1878), Saint-Cyr (1880) e Paris (1884), na França; Utrera (1880) e Barcelona – Sarriá (1884), na Espanha; Battersea (1887), na Inglaterra; Liége (1887), na Bélgica.

Nesses anos, entretanto, vão aumentando as incompreensões e os contrastes com a cúria da arquidiocese de Turim, sobretudo devido ao tipo de formação oferecido nas obras de Dom Bosco; de fato, ia sendo traçado um modelo de religioso e de sacerdote em contraste com o que se propunha um pouco em todos os lugares pelos bispos e pela própria Santa Sé, um modelo mais aberto e tendendo a superar certa separação entre clero e povo. A divergência tornou-se conflito quando, ao arcebispo Riccardi di Netro (falecido em 1870), sucedeu como arcebispo dom Lourenço Gastaldi (1871), que no passado fora admirador, colaborador e benfeitor de Dom Bosco. Gastaldi partiu do pressuposto de que a Sociedade Salesiana era diocesana e, por isso, sob a plena autoridade episcopal. Interviu, por isso, de modo crucial sobre Dom Bosco e junto à Santa Sé para que fossem tomadas decisões no sentido desejado por ele. O contraste exasperou quando em 1878-79 foram publicados em Turim cinco panfletos que criticavam duramente a gestão diocesana do arcebispo e o tratamento usado por ele com Dom Bosco. Gastaldi lamentouse com a Santa Sé, insinuando que o inspirador dos folhetos fosse o indócil fundador dos Salesianos. A pedido de Leão XIII, Dom Bosco precisou curvar-se a um ato de desculpas ao arcebispo e um documento de “concórdia” (16 de junho de 1882); contudo, o gelo entre os dois permaneceu e repercutiu longamente na atitude tanto do clero diocesano como dos Salesianos. Falecido dom Gastaldi (25 de março de 1883), este foi sucedido na sede de Turim por Caetano Alimonda.

Apenas no ano seguinte, Dom Bosco obteve o decreto de extensão dos privilégios concedidos pela Santa Sé aos Redentoristas, inclusive, por isso, o da isenção da jurisdição episcopal (18 de junho de 1884). Dom Bosco encarnou um amor exemplar à Igreja e ao Papa, tornando os ideais programáticos da própria vida. Os seus não eram tempos em que o amor à Igreja fosse de moda, ao contrário; mas ele amou a Igreja, declarou amá-la, defendeu-a, serviu-a, fez dela um ideal de vida e bandeira do seu trabalho. E não se trata apenas de amor à Igreja universal e ao Papa, mas de amor e fidelidade à Igreja local. A sua Igreja local. João Bosco amou-a sempre e mesmo nos momentos difíceis, quando a compreensão não era uma atitude fácil. Não se afastou, não se refugiou no universalismo da Igreja por sentir-se estranho na Igreja que o vira nascer, o educara, lhe abrira os espaços da caridade. Mesmo com o passar dos anos, Dom Bosco esteve atento em cultivar os apoios possíveis entre os quadros da monarquia e do Estado liberal; nos sorteios, entre os prêmios colocados em disputa havia pontualmente aqueles oferecidos por algum membro da Casa reinante. Sendo o governo transferido para Florença, ele continuou a apresentar pedidos de subsídios dos fundos ministeriais em favor de suas obras pela juventude pobre. Em 1866-67, o Presidente do Conselho, João Lanza, poderoso expoente da Direita, também recorreu a ele nas controvérsias entre a Santa Sé e o Governo sobre a nomeação de bispos para as sedes episcopais vacantes. Nos anos 1870-71, foi envolvido pelo mesmo Lanza na questão do exequatur que, depois da lei das garantias, o governo reivindicava para si autorizar a tomada de posse de suas sedes dos bispos nomeados pelo Papa. Dom Bosco aproveitou a ocasião para insistir no duplo papel que se atribuía, isto é, a sincera fidelidade ao Papa e ao Estado.

As controvérsias políticas envolvem-no, mas ele as vive como padre. Sente as questões sociais, mas as enfrenta como padre. As situações eclesiais – não sem dificuldades, contradições e problemas – encontram-no simplesmente sacerdote: entregue ao Evangelho, à missão da Igreja, ao amor e respeito ao Papa, este padre tão concreto, tão incisivo na história da sua gente, permanece essencialmente um padre de Jesus Cristo, iluminando com a sua presença tempos não fáceis para a Igreja e, em especial, para o clero. O dinamismo do seu amor torna-se universal com o passar dos anos, levando-o a acolher o apelo de nações distantes, até as missões de além-oceano, por uma evangelização que nunca está separada da autêntica obra de promoção humana. Na onda da emigração europeia e em resposta à questão social e política da instrução, pôde enviar os Salesianos e as Filhas de Maria Auxiliadora a vários países da América Latina: Buenos Aires (1875), San Nicolás de los Arroyos (1886), Carmen de Patagones e Vidma (1879), Santa Cruz (1885) na Argentina; Montevidéu (1876) no Uruguai; Niterói (1883) e São Paulo (1884) no Brasil; Quito (1885) no Equador; Concepción e Punta Arenas (1887) no Chile; Malvinas Falkland (1887). Os empreendimentos de alguns Salesianos pioneiros entre os indígenas da Patagônia e da Terra do Fogo, refletindo epicamente na Europa, aumentavam os entusiasmos e mobilizavam vocações missionárias no mundo juvenil salesiano, estimulado, além do mais, pela narração que Dom Bosco fazia confidencialmente de ‘sonhos proféticos’ sobre o futuro dos Salesianos nos cinco continentes. Sensível ao clima de reorganização das forças sociais católicas na Itália, Dom Bosco fundou em 1876 a União dos Cooperadores Salesianos, inspirada no princípio “vis unita fortior”. Disso resultou um amplo envolvimento da opinião pública e de várias camadas da população. A rede dos Cooperadores foi cultivada com conferências apropriadas e o lançamento do mensal Boletim Salesiano a partir de 1877. O Boletim, enviado gratuitamente também a não Cooperadores, serviu para aumentar simpatias e também buscar financiamentos para os empreendimentos que Dom Bosco estava promovendo.

Não obstante a idade avançada e a saúde frágil, nos últimos anos de vida, não deixou de viajar para sustentar as suas iniciativas. Em 1883, foi recebido por multidões de admiradores em Paris; no mesmo ano foi a Frohsdorf (Áustria); em 1884 e 1885 a Marselha; em 1886 a Barcelona; em maio de 1887, vai a Roma pela última vez. Morre em Turim, no oratório de Valdocco em 31 de janeiro de 1888 e o chefe do governo, Francisco Crispi, autorizou o seu sepultamento no colégio salesiano de Turim – Valsalice. O segredo de “Tanto espírito de iniciativa é fruto de uma profunda interioridade. A sua estatura de Santo coloca-o, com originalidade, en tre os grandes Fundadores de Institutos religiosos na Igreja. Sobressai por muitos aspectos: é o iniciador de uma verdadeira escola de nova e atraente espiritualidade apostólica; é o promotor de especial devoção a Maria, Auxiliadora dos Cristãos e Mãe da Igreja; é a testemunha de leal e corajoso sentido eclesial, manifestado através de mediações delicadas nas então difíceis relações entre a Igreja e o Estado; é o apóstolo realista e prático, aberto às contribuições das novas descobertas; é o organizador zeloso das Missões, com sensibilidade verdadeiramente católica; é, por excelência, o exemplar de um amor preferencial pelos jovens, especialmente pelos mais necessitados, para o bem da Igreja e da sociedade; é o mestre de uma eficaz e genial práxis pedagógica deixada como dom precioso a ser conservado e desenvolvido... Ele realiza a sua santidade pessoal mediante o empenho educativo, vivido com zelo e coração apostólico, e que sabe propor, ao mesmo tempo, a santidade como meta concreta da sua pedagogia. Precisamente tal intercâmbio entre “educação” e “santidade” é o aspecto característico da sua figura; ele é um “educador santo”, inspira-se num “modelo santo” – Francisco de Sales -, é discípulo de um “mestre espiritual santo” – José Cafasso -, e sabe formar entre os seus jovens um “educando santo” – Domingos Sávio” (JOÃO PAULO II, Iuvenum Patris, n. 5).

Em Dom Bosco, tudo isso também foi caracterizado pela entrega sem reservas ao ministério sacerdotal, pela atenção preferencial aos jovens e ao povo, pela simplicidade do comportamento amável e cativante, pela fantasia e iniciativa pastoral, pela capacidade de discernir os sinais dos tempos e intuir as necessidades do momento e os futuros desenvolvimentos. Ele teve uma profunda vida interior e foi ao mesmo tempo corajoso, otimista, capaz de contagiar e envolver a muitos na sua obra educativa e pastoral. Este padre, São João Bosco, ainda criança ficou órfão de pai. O Senhor deixou ao seu lado, por muito tempo, uma admirável mãe – mamãe Margarida, hoje venerável – e concedeu-lhe também uma intuição inesgotável de graça sobre a presença de Maria na vida da Igreja. A basílica que o Santo quis dedicada à Auxiliadora não só testemunha uma devoção que se tornou grande com o seu coração transfigurado pela caridade, mas também nos recorda que todo itinerário cristão é ajudado por esta Mãe, solicitado por esta presença e transfigurado por esta suavíssima maternidade.

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Fonte: sdb.org

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